<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Ajo logo existo: não há mudança sem acção]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://ajologoexisto.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[Daniel Gomes]]></author_name><author_url><![CDATA[https://ajologoexisto.wordpress.com/author/dcgomes/]]></author_url><title><![CDATA[Porquê]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p>Já deixei algumas palavras por dizer. Mas algumas por serem tão importantes têm de ser escritas.</p>
<p>Uma das pessoas que eu mais admiro e estimo vai passar por uma provação que não merece.</p>
<p>Porquê?</p>
<p>Com tanta gente que anda nesta vida por ver os outros andarem.</p>
<p>Porquê?</p>
<p>s&#8217;Ele existe porque te escolheu a ti?</p>
<p>Sexta 24, um SMS e todas as minhas preocupações tornaram-se insignificantes. As duas semanas de flatada durante as férias, a minha constante ansiedade injustificada, as minhas dores no ombro direito, o desgaste da rotina paraíso de mar; inferno de ruído, a amigdalite da mais velha, a mais nova comer do chão.</p>
<p>E todas ganharam novamente a maior importância por serem a Vida.</p>
<p>&#8220;A idade média ao diagnóstico situa-se entre os 65 e os 70 anos.&#8221;</p>
<p>Ainda te faltam 30 anos.</p>
<p>&#8220;É mais comum em negros.&#8221;</p>
<p>Só se fores imbondeiro.</p>
<p>Mieloma múltiplo.</p>
<p>&#8220;Ai o que estes gajos inventam para não trabalhar&#8221; &#8211; imaginei-te a gracejar em resposta ao diagnóstico do médico.</p>
<p>Q&#8217;Azar do caralho &#8211; só consigo pensar.</p>
<p>Eu que não tenho a tua vocação para a comida inventei uma receita para o jantar. Para parar de pensar: Sei Lá.</p>
<p>Abri a primeira garrafa que agarrei e era Branco do Avô escrito à mão. Sorri por dentro e o primeiro gole soube-me a Vida.</p>
<p>&#8220;Ele não vai morrer, pois não?&#8221;. Perguntou-me ela com a sua característica perspicácia e desespero nos olhos em resposta imediata ao nosso &#8220;Ele está doente.&#8221; e preocupação grave estampada nos rostos. Toda a gente morre por isso é que temos que aproveitar a bênção da vida em cada dia &#8211; não tive a insensibilidade inoportuna de lhe responder.</p>
<p>&#8220;Não. Ele vai fazer um tratamento&#8221;. Respondemos-lhe.</p>
<p>E ela com 8 anos nada mais perguntou.</p>
<p>Mas conhecer pela primeira vez o desespero na face da minha princesa angustiou-me um sufoco.</p>
<p>Já se foi meia garrafa sozinho. Quem bebe meia, bebe uma. Fecho os olhos e sinto as olheiras como depósitos a encherem-se de sal.</p>
<p>Eu penso n&#8217;Ela todos os dias e quando chegar a minha Hora estarei grato pela vida perfeita que todos temos até lá. Sinto o seu braço frio sempre sobre o meu ombro (não o que me dói, o outro) e eu abraço-a também sem medo nem rancor. &#8220;É a vida&#8221; &#8211; lembro-me da minha avó dizer após vencê-La mais uma vez.</p>
<p>Mas o mais ténue vislumbre d&#8217;A dos meus queridos deixa-me aterrorizado. Abraço-as, beijo-as como se fosse a última vez, como se fosse comigo e deito-me a pensar em ti.</p>
<p>Se amanhã estas palavras ainda fizerem sentido escrevo-as.</p>
<p>São 5:30 da manhã. Acordo sozinho. O efeito do Branco do Avô já passou. O aperto no peito ficou.</p>
<p>Porquê?</p>
<p>Porque são os mais fortes os escolhidos para vencerem as mais duras batalhas.</p>
<p>Fica combinada uma mini antes, durante e depois.</p>
<p>Até termos 80.</p>
<p>Escrevo-as.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></html></oembed>