<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[ANTES DO TEMPO]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p><span style="font-weight:400;">O ombro esquerdo queima. Aguenta mais um pouco. Queima mesmo! Está escuro e caminhamos em fila indiana ao longo da anhara húmida. Mudo o peso para o ombro direito. Também queima. Aguenta mais um pouco. No céu, a via láctea ilumina fracamente o caminho, mas os olhos há muito que se adaptaram. Na verdade, não vejo bem o trilho, tudo a branco e preto, mas sigo confiadamente duas passadas atrás do vulto que segue adiante. Mudo o peso para o outro ombro. Queima mais. O silêncio é apenas acompanhado pelo ruído do roçar das botas na erva molhada, ou pelo piar sobressaltado de uma ave subitamente espantada do seu descanso.  Já perdi as contas ao tempo e só sei que caminhamos há muito porque os ombros pedem alívio e as pernas começam a pesar. O odor a transpiração que me chega da frente é mitigado, entrecortado com o cheiro a erva moída, pisada e repisada, e com os gases orgânicos que se libertam da lama. </span></p>
<p><span style="font-weight:400;">Ao longe, a linha de árvores aparece de vez em quando, se alguém liga a luz durante uns segundos. Nada se move. Andamos mais uns metros, quantos não sei. Terão sido cem ou duzentos e acende-se novamente a luz. Todos param a ver os brilhos a mover-se lentamente para a direita e para a esquerda. São olhos de gazela. A excitação é muita, os olhos arregalados pela visão efémera dos animais, e esqueço-me das pernas e dos ombros. Murmura-se: ainda estão longe. O holofote apaga-se e a carabina é-me subtraída rapidamente. Que alívio! Sinto-me mais leve, agora que este episódio de iniciação ao mundo dos adultos teve intervalo. É incrível como, ao fim de andar uns quilómetros, três quilos ao ombro fazem muito impacto num rapazito de 12 anos! Ou seriam 10? Não me lembro bem.</span></p>
<p><span style="font-weight:400;">Caminhamos agora mais rapidamente e em silêncio em direcção ao local onde os olhos tinham sido avistados. De quando em quando, o holofote acende-se por uma fracção de segundo, movimentando-se em espiral, talvez hipnoticamente, numa verificação da posição. Ficando mais nítidas à medida que vamos ficando mais próximos, as gazelas inquietas não suspeitam do que está prestes a suceder-lhes.</span></p>
<p><span style="font-weight:400;">O tiro! Depois outro, e outro.</span></p>
<p><span style="font-weight:400;">O holofote agita-se de um lado para o outro, fragmentos de uma debandada, os olhos brilhantes das gazelas aos pulos em todas as direcções, sente-se o pânico, e rapidamente tudo desaparece.</span></p>
<p><span style="font-weight:400;">Mais uns metros e chegamos ao corpo tombado que treme durante breves momentos, os grandes olhos arregalados, um cheiro forte a bicho selvagem e aos excrementos que surgem com a morte.</span></p>
<p><span style="font-weight:400;">Imagens que ficaram de uma experiência antes do tempo, ou talvez não.</span><span style="font-weight:400;"></span></p>
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