<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[VAMPIROS NO QUARTEL]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Soldados a cantar, soldados a chorar, e eu a olhar. Nunca tinha ouvido os versos que diziam:</span><span style="font-weight:400;"> “</span><span style="font-weight:400;">No céu cinzento/Sob o astro mudo/Batendo as asas/Pela noite calada…” E, marcado por tal cenário, não mais esqueci. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Antes da revolução de 1974, não se falava abertamente da validade da guerra colonial, nem se cantava &#8220;Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada&#8221; em qualquer lugar. As rádios não passavam a canção devido à censura e quem ouvisse poderia ir relatar o assunto aos ouvidos de quem tinha poder para dificultar a vida. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Fui ajudar meu pai, como era costume, em mais uma viagem de abastecimento de medicamentos a comerciantes em zonas mais afastadas. Eram centenas de quilómetros por trepidantes e empoeirados caminhos, paisagens lindíssimas ou monótonas, e por curiosas aldeias com pessoas carentes de comunicar. Na maioria das vezes, recebiam-nos muito bem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Nessa tarde parámos numa aldeia distante com meia dúzia de casas, pertença de fazendeiros quase todos europeus, rodeadas de campos agrícolas e das cubatas dos trabalhadores, todos nativos. Havia também um quartel da tropa portuguesa estacionada na terra em marcação de poder, pacificador e de protecção de interesses económicos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Ao final do dia fomos jantar no quartel, pois tínhamos sido convidados pelo militar mais graduado. Em terras onde nada se passa, a presença de forasteiros constituía uma oportunidade de quebrar a monotonia de uma missão ingrata.  Muitos dos soldados já lá estavam há mais tempo do que é aconselhável para manter a cabeça no lugar. Relataram, por exemplo, a caçada em que tinham abatido, para desentediar, toda uma manada de antílopes com rajadas de metralhadoras, e depois deixado tudo para as moscas…</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Comida e copos a mais, boa disposição e cantorias. Partilha de vivências e perguntas sobre conhecidos que se revelam com a conversa. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A certa hora, já tarde, cantou-se a canção. Primeiro os dedos suavemente nas cordas, baixinho, no meio das vozes cruzadas que rapidamente se calaram. Depois o cantor, cada vez mais alto até estarem todos em coro. Arrepiante. Foi uma revelação para mim, que era um quase zero em cultura política, ouvir cantar com sentimento “São os mordomos/Do universo todo/Senhores à força/Mandadores sem lei.”</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Ocorre-me frequentemente o filme dessa noite em que vi revolta e resignação, suspeita e confiança em estranhos, a emoção de uma força que desconhecia, tudo com a canção do Zeca Afonso “Eles comem tudo/Eles comem tudo/Eles comem tudo/E não deixam nada.”  Os vampiros.</span></p>
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