<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[DON&#8217;T DO IT AGAIN,&nbsp;PLEASE!]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;"><em>“Professor! Don&#8217;t do it again, please!”</em> Esta foi a frase que quebrou a tensão e originou uma gargalhada geral. Quem a proferiu foi o professor Andrzej Łysak, na altura no Porto a convite do professor João Machado Cruz. Durante alguns meses, em 1982-3, contribuíu para a formação dos doze finalistas da licenciatura em Biologia, ramo científico, na variante de zoologia. Falta explicar a razão da intervenção.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Estávamos no anfiteatro do piso 4 da antiga Faculdade de Ciências, agora Reitoria da Universidade do Porto. O conferencista era outro professor convidado para o mesmo efeito, não me lembro do seu nome. A meio da palestra, um sismo abanou ruidosamente toda a velha estrutura em madeira da sala. Durante uns segundos que pareceram uma eternidade, ficou toda a gente paralisada. No final, um silêncio profundo que só foi  quebrado pela intervenção cómica e libertadora do professor polaco.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Era uma personagem curiosa, para além de cientista e professor, não só na terra natal mas também em África. A sua carreira tinha andado em volta do estudo do metabolismo e da aquacultura da carpa-comum. Esta espécie de peixe foi baptizada por Lineu de </span><i><span style="font-weight:400;">Cyprinus carpio,</span></i><span style="font-weight:400;"> nome curiosamente derivado do grego “kúpris”, o outro nome de Afrodite, e que dizem ser uma relação com a elevada fecundidade da espécie, </span><span style="font-weight:400;">podendo chegar a várias centenas de milhar de ovos postos por cada fêmea.  </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Para além da ciência e produção animal o professor Lysak tinha preocupações sociais. Lembro-me de ele ter andado bastante atarefado em actividades de recolha de roupa para os seus conterrâneos, na altura em situação económica muito difícil, e da nossa visita ao barco polaco em Leixões. A sua rede de contactos designou que esse barco viesse buscar o material recolhido. Nós ajudámos a introduzi-lo no porto, talvez de uma forma pouco legal, visto que os seguranças da portaria  olharam para o lado e não fizeram revista ao veículo, como seria expectável. Estariam avisados. Não tenho nenhuma ideia de quantos barcos polacos terão feito desses carregamentos no porto de Leixões. Nessa noite fomos convidados e jantámos a bordo, não me lembro bem se terá sido carpa com cebola, o jantar típico de natal no país dos anfitriões. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">O professor Lysak não perdia tempo e estava sempre a pedir “cunhas” para isto ou para aquilo. Por exemplo, conseguiu  condições para continuar os seus trabalhos de investigação sobre o metabolismo do iodo em carpas, usando as instalações não só da faculdade mas também de uma unidade de saúde. Foi no hospital de São João que eu o acompanhei e ajudei em toda a operação, desde o transporte dos peixes em bidões com água e arejamento contínuo para uma sala no hospital, a sua anestesia, e também a injecção do material radioactivo. Algum tempo depois o transporte em bandeja para a sala de radiografia, nos intervalos dos pacientes humanos, as </span><span style="font-weight:400;">carpas cobertas com um pano húmido. Uma delas saltou, assustando as pessoas na sala de espera que pensaram, certamente, tratar-se de uma parte qualquer do corpo humano. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No que respeita ao conteúdo das suas aulas sobre produção de peixes, segundo o modelo Central Europeu, não tive qualquer utilidade, a não ser o poder interpretar melhor acontecimentos posteriores e opinar com conhecimento de causa. Já quanto ao seu empenho, foi um excelente exemplo. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Finalmente, no que respeita às carpas, ele estava longe de imaginar que esta espécie, originária da Ásia e Europa Oriental, acabaria por se transformar, em poucas décadas, numa invasora em quase todo o mundo para onde foi levada. Tem causado prejuízos ambientais, sobretudo para os outros peixes, inclusivamente em Portugal. </span></p>
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]]></html></oembed>