<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[GOLFINHOS DE POTÊNCIA]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">O ambiente é abafado, muito barulhento e mal-cheiroso, quase insuportável. O espaço é apertado e tem entranhado o rasto de mil peúgas e dos respectivos donos, transpirados do trabalho duro. Difícil de imaginar como é possível descansar nestas condições, mas este é um pensamento de quem não está habituado a estas lides. Estou a ver-me deitado no beliche dos marinheiros, no bojo de uma traineira, paredes meias com o motor diesel de muitos cavalos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Estando nós em pleno oceano, não seria mais adequado dizer que o motor tem &#8220;X&#8221; golfinhos de potência? Enfim, a cena passou-se da primeira e última vez que fui à pesca da sardinha. Tínhamos saído há já algumas horas da doca de Leixões, Matosinhos. Era janeiro de 1983 e o vento gelado cortava as orelhas. Enquanto o mestre continuava à procura de sinais do paradeiro do seu sustento, tinha sugerido que eu fosse descansar, e disse que mandaria chamar-me quando houvesse novidades. Mais valia ter recusado mas, se o tivesse feito, a experiência teria sido incompleta e a introdução a esta memória muito menos sensorial.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Tinha conseguido o favor de estar a bordo através do senhorio que me alugava o quarto onde dormia, na Foz Velha do Porto, durante o último ano de faculdade. Era primo do mestre e o tema da pesca e as polémicas geradas por esta actividade, exercida muitas vezes à margem dos regulamentos, tinha vindo à conversa a propósito de uma notícia de mais uma apreensão de redes ilegais. Que não, o primo era sério! Se eu quisesse testemunhar… Eu quis,  e assim se combinou mais uma aventura. No dia marcado apresentei-me na cancela da doca, camisa quente de flanela como os pescadores, para não destoar, um anorak velho para sujar, e máquina fotográfica para registar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Noite adiantada, a sonda deu sinal e lá me destinaram um ponto de observação, arrumadinho para não estorvar. A chalandra (bote auxiliar) foi largada com a ponta da rede e a traineira fez o cerco ao cardume, começando depois a esticar a retenida, o cabo que passa pelo fundo da rede e a transforma numa “cesta” de grandes dimensões, impedindo os peixes de fugirem para baixo. Captei algumas imagens até descobrir, azelhice, que não tinha mudado as pilhas ao </span><i><span style="font-weight:400;">flash</span></i><span style="font-weight:400;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No meio da azáfama, a algazarra dos pescadores anunciou visitante assíduos. Eram golfinhos. Vinham comer as presas fáceis, sardinhas que saíam da rede, atordoadas, asfixiadas, esmagadas pela compressão do cardume, cada vez mais concentrado à medida que o cerco ia apertando. A recolha ou alagem ia reduzindo o diâmetro da “cesta”, passando das centenas de metros para menos de uma dezena. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Nessa noite foram feitos dois lanços, enchendo as caixas de armazenamento do pescado, e o regresso a Leixões foi de madrugada. Já com a luz do dia foi feita a descarga para o cais, à força de braços, e os cabazes cheios de sardinhas foram encaminhados para a lota ali ao lado, local onde tudo iria ser registado e leiloado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Nessa época desembarcavam-se em Portugal entre 80 mil e 100 mil  toneladas de sardinhas por ano, e em 2018 apenas um décimo desse valor, uma indicação clara dos problemas ecológicos e de má gestão que há muito afectam este recurso. Tais factos não impedem muitos, desde pescadores a políticos e governantes, de dizerem que se deve pescar mais e fazer mais barcos de pesca&#8230; Quanta ignorância e continuação de má gestão!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A sardinha já foi o mais importante recurso nas nossas pescas, alimentando a população mais pobre, movimentando a indústria e criando muitos postos de trabalho. Hoje está reduzida a uma parte com significado pouco mais que simbólico, nas festas dos santos populares, sendo a maioria dos restaurantes e a indústria conserveira abastecidos ao longo do ano com importações desta espécie.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Uma última palavra para os pescadores.  Dessa vez não vi nada de irregular, mas o certo é que todos os anos continuam a ser detectadas muitas infracções na exploração dos recursos pesqueiros. Por outro lado, os pescadores assalariados continuam a ser o elo mais fraco nesta actividade, auferindo rendimentos muito baixos, ao mesmo tempo que o pescado é transaccionado a valores irrisórios face ao que o consumidor final paga. Não é justo. </span></p>
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