<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[REMA, REMA!]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">O bicharoco não estava assustado, podia desaparecer quando quisesse. Parecia, isso sim, que se divertia à nossa custa, afundando aqui e emergindo mais além. De máquina fotográfica na mão, eu olhava em volta e pedia ansioso: está ali, rema, rema, Zé! E o Zé, fazendo-me a vontade, remava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Acabei por fazer dois ou três “slides”(1) os quais, depois de revelados, eram decepcionantes. O céu coberto de nuvens brancas só piorou as imagens, reflectindo-se na superfície da água, na pelagem molhada, nos olhos escuros que ficaram sem expressão. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Remar atrás de um castor gorducho, num dos muitos lagos espalhados no meio da enorme floresta do norte do continente americano, na zona de transição entre a floresta temperada e a floresta boreal, foi só um episódio engraçado de uma aventura maior, a primeira viagem ao Canadá.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Depois de visitar a família em Toronto, que foi inexcedível, fazendo até uma visita guiada às cataratas de Niagara, a viagem prosseguiu de Ontário para o Quebec. Foram seiscentos quilómetros de paisagens novas, das margens do grande Lago Ontário até à floresta da região conhecida como Laurentides.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A “Station de biologie des Laurentides” onde tivemos o privilégio de passar quase uma semana, era de admirar. Situada no meio da floresta, rodeada de pequenos lagos, uma paisagem lindíssima, tinha todas comodidades e muitas valências. Gostei de ver os bem equipados  laboratórios e de ajudar em trabalhos de campo feitos por estudantes de vários graus da universidade de Montréal. A abundância de equipamentos e de oportunidades era de fazer inveja. E comia-se bem! </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No restante tempo disponível, e era bastante pois os dias longos de agosto assim o ditavam, preferia passear na floresta e observar a grande diversidade de árvores e de aves. E remar nos lagos, havia botes e canoas de alumínio à disposição. Foi num desses passeios lacustres que vimos os castores, e também as suas características casas de troncos roídos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A visita à estação era uma cortesia dada por alguém ao nosso chefe de departamento na faculdade. Ele esforçou-se para proporcionar aquela oportunidade a dois dos seus assistentes, nos dias que antecederam um ”Advanced Study Institute”,  financiado pela NATO, e ao qual tínhamos apresentado candidatura. O resultado foi favorável e pagaram-nos os voos transatlânticos, o alojamento e a alimentação. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">O curso teve lugar no campus da Bishop&#8217;s University, em Lennoxville, cerca 150 km a leste de  Montréal, e foi útil para aprender os desenvolvimentos mais recentes no tema, como em qualquer conferência ou simpósio, mas também por podermos contactar de perto com cientistas de prestígio. Além de ouvir e perguntar, tivemos de fazer uma apresentação sobre o nosso trabalho para eles criticarem e nos ajudarem a fazer melhor. Escolhi o tema:  “Gonads-carcass seasonal energy transfer in the pouting, </span><i><span style="font-weight:400;">Trisopterus luscus</span></i><span style="font-weight:400;"> L., from the North coast of Portugal.” com resultados de um ano de trabalho. Para os menos familiarizados com peixes, trata-se da faneca.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No final houve festa, e cada país presente tinha que actuar. Uns declamaram poesia, outros cantaram, e outros não me lembro. Os três tugas presentes tinham pouco em comum, um era nortenho, um lisboeta e outro era africano. Depois de matar a cabeça, descobrimos algo que todos sabíamos.  Ao serão, de braços dados e passos ensaiados, o trio cantou “As meninas de Odivelas”. Foram três ou quatro quadras brejeiras que berrámos, na certeza de que mais ninguém entendia a língua de Camões, ou melhor, atendendo ao conteúdo, a língua de Bocage. Um sucesso!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Mais tarde, o cientista mais importante veio dizer em português rudimentar que não tinha percebido bem. Afinal, perguntou, de que tratava a canção?</span></p>
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<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">(1) Na era pré-digital a fotografia não era barata. Pagava-se bastante por cada rolo de 12, 24 ou 36 imagens. Podia escolher-se fazer negativos ou positivos, os slides ou diapositivos, e depois pagava-se a revelação. No caso de se escolher fazer negativos, pagava-se ainda cada fotografia passada a papel, variando os preços em função do tipo de papel e das suas dimensões.  Escolhendo fazer slides, pagavam-se os caixilhos e, obviamente, era necessário comprar um projector para os ver, numa parede ou num ecrã, mais uma despesa.</span></p>
]]></html></oembed>