<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[ERVAMOIRA]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Era perfeita, nunca tinha visto igual. As almofadas oblongas bem marcadas e os traços deixados pelas longas unhas não deixavam lugar para dúvidas. Na margem do rio Côa, ainda o sol se levantava e uma neblina suave pairava sobre a água, dei com ela em cama de areia fina, ainda húmida da noite. No meio de outras igualmente nítidas, de pequenas aves que também ali tinham passado pouco tempo antes, a grande pegada de texugo destacava-se. Fotografei-a e, com o pouco gesso que me restava, fiz o respectivo molde para usar nas aulas. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A poucos metros de distância da margem estavam as ruínas que eram a razão da nossa presença no local. Datadas do século I e posteriores, tinham sido identificadas como uma pequena “estação de serviço” do tempo de ocupação do território ibérico pelos romanos, hospedaria, cavalariças e ferraria, completadas depois com um edifício religioso medieval. Os proprietários da vinha onde se tinham encontrado os vestígios tinham decidido criar um</span><span style="font-weight:400;"> “Museu de sítio” com o espólio das escavações entretanto efectuadas, e</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">encomendaram o desenvolvimento do projecto  ao arqueólogo responsável pelos trabalhos em curso. Foi por este que fui contactado para colaborar e, estranhando o pedido, escutei a sua ideia. Queria abordar o património arqueológico, mas enquadrando-o no património natural da região, e também nos a</span><span style="color:var(--color-text);">spectos culturais mais recentes, terminando com uma sala dedicada ao vinho, afinal o uso do solo dominante na quinta e na região envolvente. Esta versão integrada da cultura agradou-me, e aceitei fazer uma caracterização da fauna e da flora da Quinta de Ervamoira, era esse o nome, juntando-me aos arqueólogos, técnicos de património, geólogos e outros.</span></p>
<div data-shortcode="caption" id="attachment_691" style="width: 410px" class="wp-caption alignleft"><img aria-describedby="caption-attachment-691" data-attachment-id="691" data-permalink="https://armazemdebaus.pt/2019/08/01/ervamoira/pegada-texugo/" data-orig-file="https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg" data-orig-size="1406,942" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}" data-image-title="pegada texugo" data-image-description="" data-medium-file="https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=300" data-large-file="https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=1024" class="alignnone  wp-image-691" src="https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=400&#038;h=268" alt="pegada texugo" width="400" height="268" srcset="https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=400&amp;h=268 400w, https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=800&amp;h=536 800w, https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=150&amp;h=100 150w, https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=300&amp;h=201 300w, https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?w=768&amp;h=515 768w" sizes="(max-width: 400px) 100vw, 400px" /><p id="caption-attachment-691" class="wp-caption-text">A pegada de texugo. <img class="alignnone size-full wp-image-417" src="https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/03/cc0-2.png?w=24&#038;h=24" alt="CC0" width="24" height="24" /><img class="alignnone size-full wp-image-418" src="https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/03/cc1-1.png?w=24&#038;h=24" alt="cc1" width="24" height="24" />Paulo Santos</p></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Durante cinco anos, de 1997 a 2001, aproveitando a semana de férias da Páscoa, levei ex-alunos meus para ajudar nos trabalhos de campo. Escolhi alguns com competências especiais para identificação das espécies, e quase todos foram úteis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A rotina diária começava com o despertar, 6h da manhã, seguido de pequeno-almoço farto, pão de lenha, manteiga, leite, ovos, queijo, fruta e café de saco. A primeira saída para observação e inventariação de plantas e animais começava bem cedo. Implicava a formação de grupos e percorrer um dos trilho</span><span style="color:var(--color-text);">s previamente estabelecidos, a margem do Côa ou da Ribeira de Piscos, ou a vinha e os terrenos incultos, ou ainda os matos em redor. Pelas 9h, um segundo pequeno-almoço, ligeiro, e logo de seguida a segunda saída para outro percurso. Ao fim da manhã regressávamos para o almoço, ao meio dia, boa comida de aldeia acompanhada de tinto de garrafão. Era excelente, pois vinha das cubas onde se fazia o já então famoso “Duas Quintas”. Seguia-se a sesta, para descansar, dormitar, ler, compilar a informação recolhida de manhã, conversar ou usar auscultadores para ouvir música. Durava até às 16h, quando o calor abrandava, permitindo a terceira saída para mais um percurso. Depois tomava-se um merecido duche, antes do jantar.  Novamente receitas e produtos caseiros, sempre às 19h30m. Ao serão, na esplanada da casa rural, depois adaptada a museu, reuniam-se todos os participantes da semana e fazia-se o balanço do dia. Aprendia-se ao ouvir sobre todas as especialidades em estudo. Depois contavam-se histórias, cada um partilhando o que queria. A memória prodigiosa do arqueólogo-chefe do projecto destacava-se, peripécias de reis, abades e exploradores, segredos de rainhas, detalhes da nossa História… Por vezes, o dia terminava com um passeio antes de dormir, para detectar espécies noctívagas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">O museu foi  inaugurado no final de 1997, mas continuou a ser melhorado nos anos subsequentes. Na sala de entrada destacam-se ainda hoje as nossas fotografias de flores e ervas dignas de menção, aves, uma borboleta, um sardão e outros, acompanhadas dos textos explicativos que elaborámos sobre o ecossistema. E também sobre os benefícios dele obtidos desde há muito pelas populações humanas da região.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No último ano, para além do relatório final sobre a biodiversidade, escrevemos também um conjunto de recomendações, essencialmente de boas práticas na exploração da quinta, para maximizar a fauna e a flora autóctones, e para reduzir o efeito negativo dos produtos  agroquímicos. Infelizmente, a empresa proprietária da quinta tinha sido entretanto adquirida por uma multinacional pouco sensível ao assunto, e nada foi feito. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Não posso terminar sem referir que, com o início da construção da barragem do Côa, em 1994, a Quinta de Ervamoira correu o risco de ser engolida pela albufeira projectada, juntamente com outras e com o ecossistema do fundo do vale. A descoberta das gravuras rupestres do Vale do Côa, nos limites da quinta, teve considerável impacto científico internacional. No país, foi seguida de grande movimentação social contestando a construção da barragem, levando a que, em 1996, o gov</span><span style="color:var(--color-text);">erno se decidisse pela paragem definitiva das obras da barragem. Se tivessem avançado, nem vale, nem quinta, nem museu, nem aquelas boas experiências de vida. E as gravuras, tal como se dizia e cantava na altura, não sabiam nadar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Para terminar, voltemos às nossas tarefas. Sim, foi combinado de início </span><span style="font-weight:400;">que o trabalho a desenvolver seria </span><i style="color:var(--color-text);">pro bono</i><span style="font-weight:400;">, mas acabei por receber muito em troca. Tive grande prazer em colaborar, em aprender, em gozar da natureza numa zona riquíssima, dos serões culturais, da boa comida e bebida, ou dos banhos no rio (nos anos mais quentes) tudo em ambiente de amizade. Também gratificante, foi contribuir para a formação de alunos em contexto de trabalho real, a oportunidade de levar comigo os filhos num dos anos, e ainda o reconhecimento dos gestores da quinta, que se traduziu em várias ofertas natalícias de excelentes vinhos. Dito de maneira muito simplista, foram sucessivas férias de Páscoa muito bem passadas. </span></p>
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]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://armazemdebaushome.files.wordpress.com/2019/08/pegada-texugo.jpg?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[440]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[295]]></thumbnail_height></oembed>