<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[AO DESCER O RIO&nbsp;LIMA]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Não era uma azenha abandonada. Construção robusta, lages bem encaixadas umas nas outras, aparentava vários séculos de existência. De formato encurvado, interior vazio, atravessada por água entrando por abertura virada a montante e saindo por uma “porta” para jusante, a estrutura mostrava na face das pedras o desgaste e polimento de incontáveis cheias do rio. No açude em estranho padrão arquitectónico, ziguezagueando pelo rio de uma margem à outra, assentava essa construção no extremo de um agudo “V” apontando o sentido da nascente. Era o que os locais designavam por pesqueira.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Como o nome sugere, a falsa azenha servira, durante muitos anos, para capturar peixes do rio que tentavam ultrapassar o obstáculo constituído pelo açude.  Não se sabe quantos anos terão passado até os antigos se terem apercebido das vantagens de acrescentar estruturas de pesca aos açudes, construídos para desviar a água de mover as azenhas. Primeiro terão sido as nassas, armadilhas cónicas mais simples, feitas de paus e rede, ainda hoje usadas na região. Só depois, certamente, se terão dado ao trabalho de construir e aperfeiçoar estruturas mais complexas e mais ou menos permanentes, em pedra. E quanto tempo terá decorrido até modificarem a forma do açude, com o intuito melhor conduzir os migradores para a armadilha? O certo é que são referidas pesqueiras em documentos medievais pelo menos desde o século quinze. Em território nacional houve outras pesqueiras em funcionamento, não só no Lima mas também no Cávado, no Ave e até no Guadiana, entre outros, pelo que se pode daí inferir alguma coisa sobre os bons resultados  do sistema.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">De onde vinha este sucesso? Do seu engenhoso arranjo interno. Quando em função, no interior da pesqueira, um eixo com quatro cestas girava continuamente com a  força da água. Cada cesta, ao passar na água na parte de baixo da pesqueira, capturava os peixes que aí estivessem momentaneamente. E sim, entravam pela porta, atraídos pela corrente certa e ajustável por uma tábua que cobria parcialmente o orifício virado a montante.  Quantos anos terão sido necessários até os antigos descobrirem o melhor caudal de chamada?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">E do sistema engenhoso ainda não está tudo. Falta explicar que cada cesta, ao rodar para a posição superior, despejava o seu conteúdo, caso o tivesse, numa calha inclinada para um tanque, onde a captura aguardava vivinha que a fossem buscar. Admirável! Quando fomos estudá-las, já nenhuma  funcionava. Mas ainda vimos restos das cestas metálicas e o respectivo eixo, abandonados no quintal da casa de um pescador. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Para completar o estudo, de iniciativa do então chefe do departamento João Machado Cruz, descemos o rio Lima num velho bote de borracha, pouco antes da construção da barragem de Touvedo, o que iria provocar a submersão da maioria das  antigas pesqueiras e de cerca de três dezenas dos açudes do rio. Procedemos à contagem, mapeamento, fotografia e vídeo dos açudes e pesqueiras, registando ainda todos os boqueiros, encaixes de fixação de nassas, pois estas eram o principal método de pesca em funcionamento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Devo confessar que a logística da operação foi difícil. Para além da morosidade do trabalho e da grande carga de equipamento necessário, sobrecarregando o bote semirígido, de borracha e pranchas de madeira. O elevado número de obstáculos a ultrapassar na descida do rio tornou a viagem fisicamente exigente. Para ultrapassar cada açude tínhamos de retirar o material de dentro do barco, descê-lo com ajuda de cabos por desníveis até 2 metros, voltar a carregar tudo, e continuar as tarefas. Ao final do dia jantava-se bem e dormia-se profundamente, o corpo bem amassado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A barragem de Touvedo, em funcionamento desde 1993, formou uma albufeira que cobriu açudes e pesqueiras, em cerca de dez quilómetros de rio, reduzindo o ganha-pão de várias famílias de pescadores da região que dali obtinham bom rendimento, sobretudo na época da migração reprodutora da lampreia. Para dar uma ideia da importância económica da pesca e também da magnitude ecológica do fenómeno, refiro os registos informais de capturas, centenas por noite de faina, afirmando alguns lembrarem-se de ter chegado a 800. Rentável, claro, mas constituindo uma sobreexploração sem controle nem consciência, cujos efeitos a longo prazo se juntaram à redução de áreas de reprodução e à presença de outro método de captura, igualmente sem fiscalização eficaz e ainda mais destrutivo, a estacada. Esta, ainda hoje em uso na foz do rio, é um grande “funil” de rede estendido quase de uma margem à outra, e da qual pouco escapa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Voltando à albufeira de Touvedo, e facto gravoso por não haver alternativa na região, ela reduziu consideravelmente o troço de rio onde as lampreias se podem reproduzir, ampliando os efeitos ecológicos negativos da muito maior barragem de Lindoso, que há muito tinha já cortado o afluxo desta espécie a Espanha e, por consequência, a todas as zonas de reprodução situadas na parte superior da bacia hidrográfica do Lima. Todas as espécies foram afectadas, grandes migradores como salmões, lampreias, trutas, sáveis e savelhas, mas também barbos, bogas e escalos. Claro que foi construído um sistema de redução dos impactos. Mas o elevador de peixes, levando-os ao engano para uma albufeira instável, e sendo difícil a orientação até aos pequenos afluentes com condições adequadas à desova e sobrevivência de larvas e juvenis, serve de pouco. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Touvedo não tem relevância em termos de produção de energia, mas foi considerada necessária para amortecer as violentas descargas da grande barragem de Lindoso, e assim evitar os efeitos negativos das sucessivas, frequentes e erosivas flutuações de caudal, perigosas para as povoações ribeirinhas situadas a jusante. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Para fechar esta memória falta referir que fizemos também uma deslocação a casa da barqueiro pescador, para analisar a cestas da pesqueira O velhote, dono de várias nassas que operava com ajuda de familiares, completava os ganhos com o que os aldeões lhe pagavam para os atravessar o rio. Principalmente os da margem direita, mais afastados de uma estrada digna desse nome&#8230; “Ó barqueiro!” chamavam batendo as palmas, e lá ia ele. Mas voltemos às cestas. Para as desenhar, conseguimos a boa vontade de um artista. Fernando  Galhano era personagem curiosa, de discurso desempoeirado para os seus 80 anos, e tinha colocado o nome, com todo o mérito, nas capas de importantes publicações de etnografia. Eu tinha lido, em tempos, um livro sobre espigueiros (1) e os seus esquemas eram excelentes. E excelentes ficaram os das pesqueiras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Durante vários dias descemos o rio. Começando na Central Hidroelétrico de Lindoso, passámos Britelo, Entre Ambos-os-Rios, Touvedo e Ponte da Barca. Trabalho feito, decidimos continuar até ao mar. Passámos Ribeira do Rio e Ponte de Lima. No último dia de aventura fomos até Bertiandos, o vento forte a soprar de oeste não nos deixou descer mais. Dessa vez.</span></p>
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<p><span style="font-weight:400;">Dias, Jorge, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano (1961), Sistemas primitivos de secagem e armazenagem de produtos agrícolas. Espigueiros portugueses. Centro de Estudos da Etnologia Peninsular: 291 páginas.</span></li>
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