<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[PERDIDO]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Sabem dizer-me como se vai para a agência funerária Santa Cruz? Foi assim que perguntei na mesa do tasco, a primeira a seguir à porta. Sorrisos divertidos nas faces dos homens, rodeados de finos e pratinhos com ginguba. Antes que qualquer deles falasse, ouvi: “Paulinho! O que fazes aqui?” Aquela voz cantada era conhecida. Virei-me para a mesa do lado e lá estava o senhor Gaspar, amigo da família e a quem não via há tempos. Problema resolvido, pensei imediatamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Era o primeiro dia na escola e um dos primeiros numa nova cidade. Tinham-me levado para o Ciclo Preparatório e combinou-se que no fim das aulas deveria aguardar. Iria com outro catraio para a sua casa, onde os meus pais estariam à espera. Correu mal. O miúdo esqueceu-se e foi para casa sem me levar. Ralhete bem ríspido deve ter levado, mas a culpa era dos adultos. Deveriam ter planeado melhor a coisa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Com 11 anos completados recentemente, era ainda um rapazinho, mas não me atrapalhei. Mal a escola esvaziou e fiquei sozinho, pensei e executei o plano óbvio. Sabia onde era a minha casa, num primeiro andar, precisamente por cima da dita agência, uma referência como poucas, todos deveriam conhecer. O plano era meter-me a caminho e ir perguntando até lá chegar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A escola ficava no fim de uma rua sem continuação, para trás do edifício ficavam só as salinas coloridas e pequenas pirâmides de alvo sal, estendidas até onde a vista alcançava. Assim, avancei por onde tinham desaparecido pessoas e carros, uma rua poeirenta e sem casas, até entrar pelo bairro do Compão adentro. Soube-o depois, claro, na altura não sabia. Quando avistei o tasco, anunciado à distância pelas conversas cruzadas dos clientes e por um letreiro da cerveja Cuca, já tinha recebido dois ou três “não sei” de transeuntes, ao comentário das minhas expectativas. É aqui que sabem, pensei. E sabiam. Bom plano!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">O amigo terminou a bebida e a mão de cartas, não me lembro se perdeu ou ganhou. Tinha casa perto, e aí nos levou um dos presentes, mesmo junto à praia e pertinho do cinema Flamingo, locais onde regressaria amiúde. Entretanto, tinha ficado noite cerrada, não por ter passado muito tempo, mas porque o anoitecer tropical é assim mesmo, rápido. De sua casa o amigo levou-me à minha, no bairro da Caponte, onde encontrámos o expectável, a mãe apoquentada, e depois aliviada. Os pais, o do catraio esquecido e o meu, andavam à procura… Quando chegou e me viu já em casa, relaxou, mas vinha furioso, não sei se consigo mesmo. Ainda assim, descarregou: “Devias ter ficado à espera na escola!” E o amigo: ”Então, o miúdo desenrascou-se bem, ia ficar lá sozinho?”</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Foi assim um dos primeiros dias no Lobito, para onde nos tínhamos mudado. Corria o ano de 1970 e foi depois de eu ter completado a instrução primária na então Nova Lisboa, hoje Huambo.</span></p>
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