<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[CAVEIRA DE CRISTAL]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Uma caveira esculpida em tamanho real num grande cristal de quartzo, atribuída aos astecas ou aos maias (1), cabeças encolhidas de vítimas de tribos amazónicas, múmias Incas, clépsidras e tantos outros mecanismos para medição do tempo, armas e armaduras, instrumentos musicais e de navegação, autómatos pioneiros, ferramentas, maquinaria diversa e ainda estranhos aparelhos antigos, um sem fim de objectos vindos de todas as épocas, latitudes e longitudes. O conteúdo do </span><i><span style="font-weight:400;">Museum of Mankind</span></i><span style="font-weight:400;">  fascinou-me.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Em 1981, a primeira visita a Londres foi marcante, por muitas razões. Sim, as aventuras em paragens icónicas, o ir à descoberta do mundo, foram certamente o principal. Mas foi igualmente importante, e de certa forma indissociável do  resto, testar os limites da autonomia e da capacidade de desenrasque, e ainda trabalhar na apanha de uvas para pagar o que mais desejava nesse tempo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Terminada a vindima, a aventura continuou em Paris (como abordei em memórias já escritas, “<a href="http://armazemdebaus.pt/2019/05/03/escaravelhos/">Escaravelhos</a>” e “<a href="http://armazemdebaus.pt/2019/02/05/costeletas-de-porco-com-vinho-do-porto/">Costeletas de porco com vinho do Porto</a>”) dormindo numa pensão barata junto à </span><i><span style="font-weight:400;">Porte de Saint-Denis</span></i><span style="font-weight:400;"> e aproveitando os dias a conhecer a cidade, os principais monumentos e museus, e a assistir aos espectáculos de rua, uma novidade para quem só conhecia os acordeonistas cegos a esmolar à porta das igrejas. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Só uns dias depois comprei bilhete de comboio, o nocturno para a capital do outro lado do Canal da Mancha. A noite foi passada no salão do ferry, que balouçava fortemente no mar zangado, comparável este à má catadura dos agentes da fronteira na manhã seguinte. Tive de lhes responder a incontáveis perguntas, apresentar o bilhete de regresso, mostrar as libras compradas em França e também os “cheques de viagem” que levava do Porto para uma emergência. Tinham o valor hoje ridículo comparável a cem euros, emprestados e mais tarde devolvidos aos pais, mas naquele tempo essa quantia valia bem mais do que possa parecer. O inquiridor fardado deixou-me finalmente passar quando anunciei ao que ia, comprar equipamento fotográfico, o que era absolutamente verdadeiro. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Nos dias seguintes a aventura continuou intensa. Chegava à cama com os pés amassados mas com os olhos cheios do nunca visto. Comecei por procurar as ruas onde se acotovelavam grandes e pequenas lojas de fotografia. Entrei, procurei o que pretendia, comparei os preços e tomei as devidas notas. Entrei em livrarias com formidável diversidade de temas técnicos, a preços acessíveis, e comprei dois ou três livros relevantes para os estudos. Fui apreciando a arquitectura da cidade, atravessei os parques, vi os principais monumentos, entrei em museus&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">A ida ao </span><i><span style="font-weight:400;">Museum of Mankind</span></i><span style="font-weight:400;"> terá sido a cereja que ainda hoje coroa a lembrança boa dessa primeira vez em Londres. Aí tive a oportunidade de ver tantas curiosidades sobre as quais tinha lido ao longo da vida, mas das quais nunca tinha visto imagens. Devo lembrar a quem lê que esta aventura decorreu num tempo anterior à multiplicação de plataformas de disponibilização de conteúdos multimédia. Em Portugal, a televisão era pobre e as revistas estrangeiras eram caras. A internet ainda estava por nascer. Nesse museu vi tantas coisas que desconhecia completamente, e que acrescentaram saber ao que já tinha e, sobretudo, consolidaram a consciência sobre a magnitude da minha ignorância… Visto de outra maneira, aquelas horas passadas no museu foram completamente recompensadoras e, para além do maravilhamento, amplificaram a vontade de viajar, de conhecer melhor, de saber mais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No dia anterior ao regresso, fui comprar o material fotográfico nas lojas onde tinha identificado os melhores preços. Comprei também uns bons binóculos, encomendados pela Anjos. Na pensão, arrumando tudo na mochila, desfiz-me de todas as embalagens que pudessem denunciar tratar-se de equipamento novo. Uns dias mais tarde, antes de atravessar a fronteira entre Espanha e Portugal, sujei com terra as borrachas das objectivas novas para parecerem usadas. Foi o modo de ultrapassar a inspecção da guarda fiscal, sempre pronta a apreender tudo o que fosse novo, de modo a cobrar impostos de importação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No final da viagem sobrou dinheiro das vindimas. O empréstimo foi devolvido aos pais, mas só o correspondente a 60 euros, o valor dos cheques de viagem sobrantes. Perdoaram o valor em falta. Afinal, sempre tinha usado uma parte deles no último dia, para não trocar moeda francesa a taxa desfavorável.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Há poucos anos, preparando com antecedência o que gostaria de ver e rever numa deslocação à capital do reino dos britânicos, deparei-me com uma notícia inesperada. O museu tinha encerrado e o  seu espólio estava disperso em coleções privadas e no </span><i><span style="font-weight:400;">British Museum</span></i><span style="font-weight:400;">. Restou a nostalgia da visita feita quando era um jovem estudante universitário a descobrir o mundo.</span></p>
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<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Nota </span></p>
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<li style="font-weight:400;text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Há pouco tempo, li que estes crânios apresentados como sendo pré-colombianos, astecas ou maias, afinal eram falsificações de negociantes de arte do fim do século 19 e início do século 20. Com a sua aldrabice, tinham fomentado teorias rebuscadas sobre tecnologias perdidas e dado corda à imaginação de muitos, sempre em busca do insólito e do fantástico para dar mais cor à vida.</span></li>
</ol>
]]></html></oembed>