<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[ARMAZÉM DE BAÚS]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://armazemdebaus.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[paulo talhadas santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://armazemdebaus.pt/author/paulotalhadassantos/]]></author_url><title><![CDATA[O HOMEM BARRIGUDO E OS&nbsp;“ÃES”]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">No breu da noite africana, ela está iluminada pela luz crua do Petromax(1) e milhentos insectos esvoaçam em seu redor formando um véu brilhante. Cabelos longos cobrindo metade do rosto, a jovem mulher dedilha ritmadamente as cordas. E canta, sentada na beira do alpendre de madeira tosca. Canta com um sorriso malandro, a condizer com a letra: </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">“O homem barrrigudo a mulherrr não gosta, </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">quando está de frrrente parrrece está de costa!”</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">O tom abrasileirado não esconde a pronúncia teutónica que lhe está na matriz, sobretudo quando arranca para o final do refrão: </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">“Quem mandou você tomarrrr</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;"> vitámina prá engordarrrr!”</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Todos aplaudem, eu incluído, adolescente enfeitiçado pela cena.    </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Em agosto de 1974 fomos fazer uns dias de férias ao sul de Angola. Próximo da fronteira com o território conhecido na época por Sudoeste Africano, a actual Namíbia, corria o rio Cunene e dava vida a uma enorme área pouco povoada na orla do mais antigo deserto do planeta. Sem o rio não haveria condições para o gado dos Mucubais, a etnia aí dominante, gado esse que não se comia mas constituía a principal riqueza. Era  motivo de ostentação e de honra desse povo. Sem a água do rio também não seria viável a criação de gado que europeus e seus descendentes faziam em vastas propriedades de ambos os lados da fronteira.  </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Era precisamente numa destas que estávamos, convidados para jantar pelos proprietários. Eram descendentes de Boers e também de germânicos que tinham migrado mais recentemente. Por razões políticas, uns, e religiosas, outros, mantinham uma comunidade relativamente fechada no sul de Angola, afastados das cidades e de visibilidade social. Mas gostavam de visitas e fomos recebidos com festa, cerveja gelada, carne a assar no espeto e cantoria.  Muitas canções tradicionais deles, algumas angolanas e até fado, estas últimas tocadas por um farrista do nosso grupo, evidentemente. Foi já para o final que a mulher de um dos filhos, casal recentemente chegado de uma volta pela Europa, talvez a viagem nupcial, nos encantou com o que cantou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Pouco mais me lembro desse dia, com excepção de um personagem peculiar, dos capatazes da propriedade. Nunca tal tinha visto, nem mais tornei a ver. O homem, não me lembro se beirão ou transmontano, descomplexado em relação a uma incapacidade em articular o que em linguística se designa por fonema k, não se cansava de falar nos “ães” de “onfiança”, os seus canídeos, os quais criava em sua “asa” para vender. E desenrolava o discurso com um sem número de palavras truncadas, provocando sorrisos dissimulados nas crianças e uma indiferença polida nos adultos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Depois da festa, já noite adiantada, regressámos ao nosso acampamento na margem do rio. Era um local conhecido, já visitado em anos anteriores em férias familiares e que mencionei em outras memórias (<a href="http://armazemdebaus.pt/2019/02/01/piroga-no-cunene/" target="_blank" rel="noopener">Piroga no Cunene</a>; <a href="http://armazemdebaus.pt/2019/07/02/a-fisga/" target="_blank" rel="noopener">A fisga</a>). Guardo como preciosidades muitas memórias daí, algumas tão simples como cheirar e comer o pão quente saído do forno improvisado, um buraco escavado no chão. Ou os passeios de observação da flora e fauna na savana densa de acácias de várias espécies, aí conhecidas por espinheiras, e não será necessário explicar o porquê desta designação para estas incómodas plantas. Ou pescar à bóia pequenos peixes como o colorido boca-azul ou o pardo cacusso, havia tantos junto ao canavial da margem do rio. Ou acompanhar os adultos até à  aldeia mais próxima onde trocavam sal por saborosas galinhas, enquanto eu observava os penteados armados com leite, as tatuagens rituais, os ornamentos de missangas e a semi-nudez das mães. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Sim, de tantas zonas do centro e sul onde estivemos acampados com os pais, em praias, savanas e miombo, foi desta que mais gostei.      </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Nota 1:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-weight:400;">Petromax &#8211; Tipo de candeeiro a petróleo muito eficiente.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></html></oembed>