<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[asas de papel]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://asasdepapel.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[Ariana Santos]]></author_name><author_url><![CDATA[https://asasdepapel.com/author/santosariana09/]]></author_url><title><![CDATA[Tudo (mesmo tudo)&nbsp;Passa]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p>Longos contam os dias em que não escrevo. As palavras caem na alma, sem que a tinta as assente no papel ou a impressão as prenda ao ecrã. Estes foram tempos que se desenrolaram devagarinho, mas numa sucessão de pequenos grandes acontecimentos, sem dar tempo para respirar ou pensar. </p>
<p>Agora, que o extraordinário veio morar cá dentro, desalojando o emergente, o inadiável e o imprescindível, parecia que haveria tempo para contar as estórias. Na verdade, precisei de tomar as rédeas àquela velha amiga que prende os peixes no aquário, num abraço sufocante à volta do coração. A ansiedade e o medo segredam ao ouvido de todos e eu tinha já o desábito de a domar. Foi necessário tomar-lhe o pulso, desmontar o medo com paciência búdica, com carinho e desvelo. Dizer-lhe que o amanhã em destroços não aconteceu todavia; foi apenas a sua verborreia assustada que criou o mundo em ruínas e, em verdade, olhando a janela, os passarinhos cantavam ainda e o sol nascia e morria nos lugares de sempre. E cá dentro, o coração batia. Passei a mão no rosto quente e disse ao Medo para falar baixinho, os sentidos em alerta estavam melindrados com os seus gritos. Ah, o medo, a ansiedade, do que ainda não foi, não é e não se sabe se poderá ser.</p>
<p>É preciso falar em intimidade com o que vai cá dentro num espaço seguro. Ir lá fora, abrir uma janela ou sentar no chão nu e frio. Tornar evidente a realidade tranquila que ainda existe, não obstante a narrativa ansiosa que contamos a nós mesmos incessantemente. O que nos conta o mundo desde os primórdios? Tudo é passageiro. Tudo passa. Nada morre, apenas tem a oportunidade de evoluir.</p>
<p>É preciso movermo-nos na esfera dos nossos possíveis. Fazer o melhor, no tempo e com as ferramentas que temos, a cada instante. O que resta, afinal, não está ao alcance do nosso braço. Caminhar no presente. Contar a estória à medida que esta acontece, sem futurismos de desastre. Ouvir pouco, apenas o que é sensato. Apreciar o que é bom porque &#8211; há sempre algo bom em tudo &#8211; o silêncio, a frescura do ar, o trinado dos pássaros. Já reparaste como tudo abrandou de repente? Se não cuidas das estórias que contas a ti próprio, pensa que agora tens mais tempo para ouvi-las. </p>
<p>Tudo passa. Vai tudo ficar bem. Mesmo o que terá de partir. Mesmo que fica e tem de viver. </p>
<p>Resume a tentar ser o mestre que senta na proa do barco durante a tempestade.</p>
<p>E de repente, o sol dissipará qualquer nuvem.</p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://asasdepapeldotcom.files.wordpress.com/2020/03/ahmad-odeh-ckm1yae6jhu-unsplash.jpg?w=1200&fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[440]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[293]]></thumbnail_height></oembed>