<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[As Folhas Ardem]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://asfolhasardem.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[manuel margarido]]></author_name><author_url><![CDATA[https://asfolhasardem.wordpress.com/author/mmargarido/]]></author_url><title><![CDATA[Beatriz Hierro Lopes — «impressões» (antecedido de nota de&nbsp;leitura)]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Emerge neste texto uma incompreensão fundamental: não tanto o modo como nos situamos perante a morte dos que amamos, mas como nos dispomos perante a sinalização da morte que a vida, os outros, nos <em>forçam</em> a <em></em>lembrar, tendo a impressão que algo ocorreu, perguntando pelo <em>ocorrido</em>. A interrogação do texto é esta: como nos preparamos para que nos lembrem a morte, de repente e de surpresa, sendo sempre esta de repente e de surpresa, seja qual for a sua circunstância? A circunstância da perda perde, aqui, a gravidade da enunciação da mesma: é o descuido, a distração, que tocam com ferros a dor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Nesse sentido, não é este um texto elegíaco dirigido à perda, mas uma elegia da vida que, não sabendo do saber cuidar da morte, morre por isso sem cura. Longe de um lamento, o texto propõe uma distância radical das incidências inúteis, daqueles que não promovem a reparação nem sabem reparar: têm impressões, curiosidades que poderão ser secamente satisfeitas (<em>«Passarei o resto do tempo a dar a</em><em> notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida»</em>).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">É aqui que irrompe intensamente a oração, brilhantemente intercalada no texto, refúgio e prece, último gesto, aquele que já não se sabe <em>fazer;</em> é aqui que se  separam as impressões da impressividade, da funda marca deixada: a intimidade intransmissível e, nesse sentido, perto da indiferença, no interior de uma fadiga irremediável (<em>«Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].</em>)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">A Ave-Maria, a mais duradoura das orações por evocar a primordialidade da Mãe, é também aquela que mais duradouramente consola e redime. Não é uma oração de promessa e de devir, como o Pai-Nosso, mas uma súplica por atender: rogo ante a morte, é certo ([e na hora da nossa morte]); mas em primeiro lugar da vida: ([agora e  na hora]).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">A morte não é temática alheia à obra de Beatriz Hierro Lopes, nem a elegia um registo que lhe seja estranho. Contudo, neste texto, onde uma oração cadenciada se musicaliza em fundo, há uma espécie de fadiga e de tédio perante os vivos que se aproxima de um desdém; ou de uma compaixão. Vão dar ao mesmo lugar vazio,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">a ausência da palavra Jesus, deliberadamente retirada da oração. Sendo comum, entre os crentes, a concepção de que Jesus, na sua divindade, estabeleceu a radical irmandade entre os homens, a autora retira-o: e assim, na não enunciação do seu nome, fá-lo presente de forma brutal: aquele que se deu pelos vivos deles se tornou um sem nome. (<em>«E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver»</em>).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Não estamos perante um texto de carácter religioso em sentido estricto; mas frente a uma milimétrica delimitação do que, no plano emocional, se revela como recusa e se escolhe como aceitação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#666699;">Recentemente publicada na revista <em>Telhados de Vidro nº 16</em>, (como já o fora na <em>Criatura</em>, na <em>Cràse</em>, na <em>Inútil</em>),  Beatriz Hierro Lopes é um dos autores maiores na recente escrita portuguesa ainda sem livro apenas seu. Não faltará muito.</span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div data-shortcode="caption" id="attachment_4144" style="width: 510px" class="wp-caption aligncenter"><a href="https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg"><img loading="lazy" aria-describedby="caption-attachment-4144" data-attachment-id="4144" data-permalink="https://asfolhasardem.wordpress.com/2012/05/08/beatriz-hierro-lopes-impressoes-antecedido-de-nota-de-leitura/attachment/2099559/" data-orig-file="https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg" data-orig-size="750,562" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}" data-image-title="08 &#8211; 06" data-image-description="" data-medium-file="https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg?w=300" data-large-file="https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg?w=750" class="size-full wp-image-4144" title="08 - 06" src="https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg?w=500&#038;h=374" alt="" width="500" height="374" srcset="https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg?w=500&amp;h=374 500w, https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg?w=128&amp;h=96 128w, https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg?w=300&amp;h=225 300w, https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg 750w" sizes="(max-width: 500px) 100vw, 500px" /></a><p id="caption-attachment-4144" class="wp-caption-text">«Orgão de tubos da Igreja da Lapa, no Porto», © Marisa Ferreira, via Olhares, fotografia online (D.R.)</p></div>
<h5 style="text-align:justify;"></h5>
<h5 style="text-align:justify;"><strong>«impressões»</strong></h5>
<p style="text-align:justify;">Há coisas que o meu catecismo não soube explicar: o porquê das avé-marias serem maiores que os pais-nossos; o porquê de só as mães ensinarem a rezar [<em>Avé-Maria cheia de graça o senhor é convosco</em>]; antes da tabuada chegam as orações [<em>bem-dita sois vós entre as mulheres</em>]; aos cinco anos ninguém sabe muito bem o que são mulheres. Rezávamos em coro. Antes de saber que só os condenados ensinam a viver, como as mães a rezar [<em>bem-dito é o fruto do vosso ventre</em>]. Tenho a minha contabilidade em ordem: por cada justiçado, sentei-me um pouco mais. A reza, pelo contrário, não é coisa que pare, reza-se pelos mortos e eu já não sei rezar.</p>
<p style="text-align:justify;">Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida. Afinal a morte dos outros é uma violação à nossa mortalidade [<em>Santa Maria, Mãe de Deus</em>]. Dá-se o rótulo da doença e conta-se o tempo passado. Numa simples frase, oração, tudo acaba. E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver. Abusamos da respiração, como de tudo o que é reprovável: contra a morte só o excesso é permitido; e quem nisso reprovação vê é porque desconhece o número de palmos de terra em que há-de enterrar a história.</p>
<p style="text-align:justify;">A história, repito-me, a história que incorporamos na nossa história. A desalma do coveiro cria-nos repugnância que, sem saber, aceitaríamos no lugar da dor. Passados tempos, meses ou anos: — <em>sim, morreu há dois anos</em>, digo à pergunta: — <em>é impressão minha ou morreu?</em></p>
<p style="text-align:justify;">Quem têm a impressão da morte de outrem?</p>
<p style="text-align:justify;">A impressão da morte como o registo identitário, a condição de se estar morto contra a memória. O cansaço. — <em>Sim, morreu há dois anos</em>. A frieza sem condição da oração determinativa. — <em>Está morto</em>, repito, desabitada. E digo-o num automatismo que me é natural, como poderia ter dito: <em>quanto frio faz nesta primavera.</em> Sou testemunha.</p>
<p style="text-align:justify;">Aos que me morreram devo a identidade. [<em>Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte</em>]<em>.</em> Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [<em>Ámen</em>]. <span style="color:#800080;"><strong>◊</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;">[Maio de 2012.]</p>
<p><a href="http://beatrizhierrolopes.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#808000;">Blogue de Beatriz Hierro Lopes.</span></a></p>
<p style="text-align:justify;"><em><br />
</em></p>
		<div id="geo-post-4143" class="geo geo-post" style="display: none">
			<span class="latitude">38.725662</span>
			<span class="longitude">-9.150357</span>
		</div>]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://asfolhasardem.files.wordpress.com/2012/05/2099559.jpg?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[440]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[330]]></thumbnail_height><geo_latitude><![CDATA[38.725662]]></geo_latitude><geo_longitude><![CDATA[-9.150357]]></geo_longitude></oembed>