<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[» bLógica]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://blogica.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[Carlos José Teixeira]]></author_name><author_url><![CDATA[https://blogica.wordpress.com/author/carlosteixeira/]]></author_url><title><![CDATA[O CONTRA-ILUMINISMO DE&nbsp;HOJE]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p>artigo de <strong>Ralf Dahrendorf</strong> &#8211; sociólogo e antigo reitor da <em>London School of Economics, </em>via <a target="_blank" href="http://kontratempos.blogspot.com/">Kontratempos</a> que publico na íntegra [desculpe, Tiago Barbosa Ribeiro] porque me parece ter que ser lido à primeira.</p>
<blockquote><p>Ainda há bem pouco tempo, poderíamos ter concluído que, pelo menos na Europa, deixara de haver tabus. Um processo que começou com o Iluminismo tinha atingido o ponto a partir do qual &#8220;valia tudo&#8221;. Em especial no que toca às artes, não havia limites aparentes para mostrar aquilo que, há apenas uma geração, seria olhado como altamente ofensivo.</p>
<p>Há duas gerações, muitos países tinham censores que tentavam não só evitar que a gente jovem visse certos filmes, mas que chegavam a proibir certos livros. Desde os anos 60 que estas proibições tinham enfraquecido a um ponto tal que o sexo explícito, a violência, a blasfémia &#8211; mesmo que incomodando algumas pessoas &#8211; eram tolerados como parte de um mundo das Luzes.</p>
<p>Ou não era exactamente assim? Não há, realmente, qualquer limite? Fora da Europa, a atitude do &#8220;vale tudo&#8221; nunca foi completamente aceite. E mesmo na Europa sempre houve algum tipo de limites. O historiador David Irving ainda está preso na Áustria pelo crime de negação do Holocausto. Claro que este é um caso especial. A negação de uma verdade muito bem documentada pode conduzir à prática de novos crimes. Mas a resposta à velha questão &#8220;o que é a verdade&#8221; nem sempre é assim tão clara.</p>
<p>Por exemplo, o que é que realmente pretendemos, quando insistimos com a Turquia para que reconheça o genocídio arménio como uma condição para poder ser membro da União Europeia? Estamos assim tão seguros da teoria darwinista da evolução ao ponto de banirmos qualquer noção alternativa das escolas?</p>
<p>Os que se preocupam com a liberdade de expressão sempre se interrogaram sobre os seus limites. Um deles é o incitamento à violência. O homem que se ergue no meio da uma multidão e grita &#8220;fogo&#8221; quando não há incêndio nenhum é culpado por aquilo que acontecer. Mas se houve realmente um incêndio?</p>
<p>É este o contexto em que podemos encarar esta recente invasão de tabus islâmicos num mundo esclarecido e maioritariamente não islâmico. Desde a fatwa sobre Salman Rushdie por causa dos Versículos Satânicos até ao assassinato de uma freira na Somália em resposta à aula do Papa Bento XVI em Ratisbona e ao cancelamento da representação do Idomeneo de Mozart, com as suas cabeças decapitadas de fundadores de religiões, na Ópera de Berlim, assistimos ao uso da violência e da intimidação para defender determinados tabus religiosos.</p>
<p>Nem todas as questões aqui levantadas têm resposta fácil para os defensores civilizados das Luzes. A tolerância e o respeito em relação a pessoas que têm as suas próprias crenças são algo de positivo e talvez mesmo necessário para preservar um mundo esclarecido. Mas há o outro lado da questão. Respostas violentas a pontos de vistas indesejáveis não têm justificação em caso algum e não podem ser aceites. Os que argumentam que os bombistas suicidas exprimem uma raiva compreensível já venderam a sua própria liberdade. A autocensura é pior do que a censura, porque sacrifica voluntariamente a liberdade.</p>
<p>Isto quer dizer que temos de defender Salman Rushdie e os cartoonistas dinamarqueses e os amigos do Idomeneo, independentemente de gostarmos ou não deles. Se alguém não gostar deles tem à sua disposição todos os instrumentos do debate público e do discurso crítico próprios de uma comunidade inspirada pelas Luzes. Também é verdade que não somos obrigados a comprar este ou aquele livro ou a ouvir esta ou aquela ópera. Em que mundo triste viveríamos se tudo o que pode ofender um determinado grupo não pudesse ser dito. Uma sociedade multicultural que aceitasse cada um dos tabus dos seus diversos grupos não teria nada para dizer.</p>
<p>O tipo de reacções a que temos assistido recentemente perante pontos de vista que são ofensivos para alguns não anunciam nada de bom para o futuro da liberdade. É como se uma nova vaga de contra-iluminismo estivesse a varrer o Mundo com as opiniões mais restritivas a tornarem-se dominantes. Devemos reafirmar de forma veemente as nossas opiniões esclarecidas contra estas reacções. Defender o direito de todos a dizer o que pensam, mesmo que detestemos o que digam, é um dos primeiros princípios da liberdade.</p>
<p>Por isso, Idomeneo deve ser representado e Salman Rushdie deve ser publicado. O direito de um editor a publicar cartoons ofensivos para os crentes de Maomé (ou de Cristo, tanto faz) depende apenas da sua avaliação, quase do seu gosto. Eu posso não o fazer, mas defenderei sempre o direito de alguém decidir de outra maneira. É discutível se incidentes recentes como estes exigem um &#8220;diálogo entre religiões&#8221;. O debate público que permite clarificar cada caso num sentido ou noutro parece mais apropriado do que a conciliação. Os ganhos do discurso iluminista são demasiado preciosos para serem transformados em valores negociáveis. Defender estes ganhos é a tarefa que hoje enfrentamos.»</p></blockquote>
]]></html></oembed>