<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Caminhos da Memória]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[João Tunes]]></author_name><author_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com/author/nc145253600/]]></author_url><title><![CDATA[Quando o Duarte esteve quase a disparar a bazuca de&nbsp;classe]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p><img style="border:1px solid black;" title="25nov" src="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/25nov.gif?w=324&#038;h=370" alt="" width="324" height="370" /></p>
<p>Muito trabalho nos requereu trazer o Duarte “ao partido”. Ele alinhava, comprava os materiais, votava “connosco” nos plenários e nas listas, mas de cada vez que se abeirava a concretização da filiação, o Duarte invocava a sua forte razão de resistência: “<em>não quero ter chatices com a minha mulher</em>” e, aí chegados, suspendia-se a sedução partidária porque não se pretendia escarafunchar os mistérios domésticos de cada um. Mas, após o 11 de Março (1975) e com a nacionalização da empresa, foi o próprio Duarte que tomou a decisão de pedir “a ficha”, fazendo questão de a requerer à sua chefia, um dos militantes mais antigos e activos na célula. Mas foi uma mera resolução formal pois não contassem com ele para qualquer participação cívico-revolucionária <em>pós-laboral</em>. Só acrescentou à sua rotina anterior de participação política o pagamento pontual das quotas. Era a forma, respeitável como qualquer outra, como ele geria as suas inclinações, entre os incêndios do PREC, mas sem “<em>ter chatices com a mulher</em>”.</p>
<p>No fim de tarde de 24 de Novembro (1975), a orientação veio rápida e sem dar margem para hesitações: “<strong>Chegou a Hora</strong>”. Tudo ia estar em jogo para se ganhar ou se perder. Não havia lugar para meias tintas. Ou se ia para o socialismo a sério ou se regredia para a longa noite. A sentença dilemática estava traçada. Portugal tinha a sina do tudo ou nada, fascismo ou socialismo real, democracia parlamentar burguesa é que não tinha cá cabidela (uma “impossibilidade” fartamente teorizada por Cunhal). Aquecida a luta de classes, a solução estaria agora nas espingardas. Pois, 1917 em Petrogrado, 1948 em Praga, etc e tal, lembram-se? Ou <em>nós</em> ou <em>eles</em>. Trazida pela controleira da zona, a instrução era para se saber rapidamente quem tinha feito a tropa mais a guerra colonial e em que especialidade. Levantamento feito, pelotão constituído em duas penadas. Tudo analisado e decidido de trinta e um de boca mas era o que se podia arranjar. É esta noite. Mais vale improvisar e atamancar que perder o comboio expresso da história. Vamos a isso. É esta noite. Ou <em>nós</em> ou <em>eles</em>. Antigo alferes miliciano, com os galões suplementares de ter andado na Guiné, calhou-me o comando do pelotão improvisado na minha fábrica. Que incluía o Duarte que tinha feito a guerra em Moçambique onde lidou com as chamadas armas pesadas de infantaria, ao qual, em termos de tarefas milicianas e revolucionárias, foi confiada a missão de lidar com a bazuca.</p>
<p><!--more-->Os pelotões improvisados foram encaminhados para uma Escola Primária em Marvila, onde se foi chegando por vagas. No escurecer, as sombras dos vultos movem-se. Senhas e contra-senhas. A sede do PS local inquieta-se com a proximidade dos movimentos. <em>O que é isto? Há emboscada?</em> E lá teriam as suas informações da outra banda. Montam-se vigilâncias reforçadas dos dois lados. Vultos para cá, vultos para lá. No ginásio da Escola, aguarda-se. Esperar, aguentar. As armas de Braço de Prata vão chegar a qualquer momento, preparadas e prontas a disparar socialismo. Depois era só saber-se onde ficava o Palácio de Inverno a conquistar. Esperando o sinal do cruzador Aurora das terras lusitanas. E avançar, avançar. Os caboucos do Exército Vermelho lusitano estavam metidos dentro do terreno. Melhor, enterrados naquela Escola Primária de Marvila e em muitas outras trincheiras. Os dirigentes sabem o que fazem. São revolucionários experimentados, isto para eles é o <em>b, á, bá</em>. As horas passam. E ouvem-se os barulhos dos movimentos dos gajos do PS. Surgem os primeiros sinais de impaciência. O Duarte, desarmado de bazuca, insiste em ir para casa porque <em>tinha a mulher em polvorosa</em>. Aguenta que isto está quase. Não vais ficar fora do retrato do momento decisivo da história do proletariado português. “<em>Não aguento nada, vou para casa, senão não consigo aturar a mulher</em>”, insistia o Duarte. Calma, isto está por pouco. Vamos trocar as voltas aos gajos que se deixaram embalar com a história da retirada da ditadura do proletariado do programa. A burguesia vai ver como elas lhe mordem. Antes que nos mordam a nós. Agora só se pode ganhar ou perder. Não há direito a empates. Está mesmo a chegar o <em>material</em> de Braço de Prata. Depois é que vão ser elas. Ou <em>nós</em> ou <em>eles</em>. Lá fora, na escuridão, só se ouvem os barulhos dos gajos do PS. Repentinamente, a nova ordem chega, trazida por um “alto responsável” do Comité Local: “<em>Camaradas, é preciso é calma, vamos todos retirar em grupos e sem dar nas vistas. Não é desta. Aqui não esteve ninguém. Ou, então, foi só um convívio de solteiros e casados. Fica para a próxima. Não há relógio que marque a hora da revolução. A ocasião soará. Mas não é desta.</em>” O Duarte foi o primeiro a zarpar, rápido e direitinho, a tentar recuperar o sossego da mulher. Os outros foram saindo, evitando passar junto aos gajos do PS de Marvila. Pensa-se que os camaradas de Braço de Prata devem-se ter cortado. Mas se eles se baldaram, houve muitas mais baldas. Se calhar, foi o proletariado, pela voz dos que em seu nome falavam, que tinha mais olhos que barriga.</p>
<p>Demorou-me tempo até perceber quanto foi bom para o regime, a democracia e para todos, <em>nós</em> e <em>eles</em>, que as tais armas de Braço de Prata não tivessem chegado até à Escola Primária de Marvila na noite de transição para 25 de Novembro de 1975. Ali e noutros poisos onde se aqueciam os motores da guerra civil. Até porque não consigo imaginar como é que o Duarte ia acertar os seus tiros de bazuca com a mente perturbada pelo desatino da mulher.</p>
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(A partir de texto já publicado no blogue <a href="http://agualisa6.blogs.sapo.pt/" target="_blank">Água Lisa</a>.)</p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/25nov.gif?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[]]></thumbnail_height></oembed>