<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Caminhos da Memória]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[Maria Manuela Cruzeiro]]></author_name><author_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com/author/mmanuelacruzeiro/]]></author_url><title><![CDATA[Lá vai o&nbsp;português]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p><img data-attachment-id="11445" data-permalink="https://caminhosdamemoria.wordpress.com/2010/04/28/la-vai-o-portugues/cardoso-pires-2/" data-orig-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/cardoso-pires.gif" data-orig-size="380,306" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}" data-image-title="cardoso pires" data-image-description="" data-medium-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/cardoso-pires.gif?w=300" data-large-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/cardoso-pires.gif?w=380" class="alignnone size-full wp-image-11445" style="border:1px solid black;" title="cardoso pires" src="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/cardoso-pires.gif?w=380&#038;h=306" alt="" width="380" height="306" /></p>
<p>«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.</p>
<p>Lá vai o português&#8230; lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.</p>
<p>No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu, com muita honra. E nisto não é como o coral que faz pé firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).</p>
<p>Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.</p>
<p>Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.</p>
<p>Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.</p>
<blockquote><p>É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.<br />
Assim, como?</p></blockquote>
<p><strong>José Cardoso Pires</strong>, <em>E Agora, José?</em> (p. 19-21)</p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/cardoso-pires.gif?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[]]></thumbnail_height></oembed>