<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Caminhos da Memória]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[Maria Manuela Cruzeiro]]></author_name><author_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com/author/mmanuelacruzeiro/]]></author_url><title><![CDATA[Portugal]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p><img data-attachment-id="11448" data-permalink="https://caminhosdamemoria.wordpress.com/2010/05/10/portugal/o-poeta-nu/" data-orig-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/o-poeta-nu.jpg" data-orig-size="275,390" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}" data-image-title="O Poeta Nu" data-image-description="" data-medium-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/o-poeta-nu.jpg?w=212" data-large-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/o-poeta-nu.jpg?w=275" class="alignnone size-full wp-image-11448" style="border:1px solid black;" title="O Poeta Nu" src="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/o-poeta-nu.jpg?w=275&#038;h=390" alt="" width="275" height="390" srcset="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/o-poeta-nu.jpg 275w, https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/o-poeta-nu.jpg?w=106&amp;h=150 106w" sizes="(max-width: 275px) 100vw, 275px" /></p>
<p>Portugal</p>
<p>Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me</p>
<p>sentir como se tivesse oitocentos</p>
<p>Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater</p>
<p>os infiéis ao norte de África</p>
<p>só porque não podia combater a doença que lhe atacava</p>
<p>os órgãos genitais</p>
<p>e nunca mais voltasse</p>
<p>Quase chego a pensar que é tudo mentira</p>
<p>Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney</p>
<p>E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente</p>
<p>Portugal</p>
<p>Não imaginas o tesão que sinto</p>
<p>Quando ouço o hino nacional</p>
<p>(que os meus egrégios avós me perdoem)</p>
<p>Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo</p>
<p>Anda na consulta externa do Júlio de Matos</p>
<p>Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar</p>
<p>àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera</p>
<p>um futuro de rosas</p>
<p>Portugal</p>
<p>Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos</p>
<p>a ver se contraía a febre do império</p>
<p>mas a única coisa que consegui apanhar</p>
<p>foi um resfriado</p>
<p>Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar</p>
<p>uma pétala que fosse</p>
<p>das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador</p>
<p>Portugal</p>
<p>Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to</p>
<p>Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir</p>
<p>Portugal</p>
<p>Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém</p>
<p>Sabes</p>
<p>Estou loucamente apaixonado por ti</p>
<p>Pergunto a mim mesmo</p>
<p>Como me pude apaixonar por um velho decrépito</p>
<p>e idiota como tu</p>
<p>mas que tem o coração doce, ainda mais doce</p>
<p>que os pasteis de Tentúgal</p>
<p>e o corpo cheio de pontos negros</p>
<p>para poder espremer à minha vontade</p>
<p>Portugal estás a ouvir-me?</p>
<p>Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete</p>
<p>Salazar estava no poder</p>
<p>nada de ressentimentos</p>
<p>O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram</p>
<p>nada de ressentimentos</p>
<p>um dia bebi vinagre</p>
<p>nada de ressentimentos</p>
<p>Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas</p>
<p>a nado na piscina municipal de Braga</p>
<p>ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional</p>
<p>Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho</p>
<p>Que Camões lá deixou</p>
<p>Portugal</p>
<p>Sabes de que cor são os meus olhos?</p>
<p>São castanhos como os da minha mãe</p>
<p>Portugal</p>
<p>gostava de te beijar muito apaixonadamente</p>
<p>na boca</p>
<blockquote><p><strong>Jorge de Sousa Braga</strong>, <em>O Poeta Nú</em>, Ed Fenda, 1991</p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/04/o-poeta-nu.jpg?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[]]></thumbnail_height></oembed>