<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Caminhos da Memória]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[João Tunes]]></author_name><author_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com/author/nc145253600/]]></author_url><title><![CDATA[In memoriam]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p><a href="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg"><img data-attachment-id="11698" data-permalink="https://caminhosdamemoria.wordpress.com/2010/05/14/in-memoriam/saldanha-sanches/" data-orig-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg?w=186&#038;h=258" data-orig-size="186,258" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}" data-image-title="saldanha sanches" data-image-description="" data-medium-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg?w=186&#038;h=258?w=186" data-large-file="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg?w=186&#038;h=258?w=186" class="alignleft size-full wp-image-11698" style="border:1px solid black;" title="saldanha sanches" src="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg?w=186&#038;h=258" alt="" width="186" height="258" srcset="https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg 186w, https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg?w=108&amp;h=150 108w" sizes="(max-width: 186px) 100vw, 186px" /></a>A  vida habitua-nos sem nos habituar a estas notícias, sobretudo quando a  velhice nos disputa o viço não perdendo oportunidade de nos corroer as  bengalas com que nos apoiamos mais no chão falso da memória que na  esperança do projectar, fazer e transformar. A razia de companhias,  afectos e admirações já me tocou funda na família (com os adeus  dolorosos dos meus pais e de dois irmãos), no meu escritor de culto  (José Cardoso Pires), no meu cantor de toda a vida (José Afonso), no  amigo que continua na palma da minha mão (o Zé), no único militar  profissional de quem fui amigo e tombou em combate de uma forma vil (o  major Passos Ramos), no líder político que mais admirei e mais detestei,  no meu contraditor político mais estimado e com quem trocava vivas  picardias <em>blogosféricas</em> sem o saber ferido por doença  implacável (o Jorge Ferreira). Sei que esta lista, nas suas várias  qualidades, vai aumentar nos dias que me restarem. Até que uns poucos me  digam adeus em saudade rápida porque mais não mereço e assim ficarei  aliviado de chorar mais perdas de companhias e referências.</p>
<p>Foi-se  o Saldanha Sanches. Não tenho competência para avaliar a dimensão da  perda do professor e do fiscalista. E há muito que, politicamente, ele  não me impressionava. Respeitava-lhe e admirava a sua frontalidade  truculenta e era tudo, o que, nos tempos que correm e segundo as minhas  medidas, não era pouco. Mas a perda de Saldanha Sanches acrescenta um  novo capítulo no meu índice de baixas. Curtido nas perdas de familiares,  amigos, pessoas de culto, faltava-me o género desta perda, o de um  companheiro de cela em Caxias. Numa vaga repressiva sobre a contestação  estudantil em 1965, um leque seleccionado pela PIDE entre os estudantes  contestatários foi encaminhado para a Prisão de Caxias. Eu e a maior  parte éramos novatos mas, na minha cela, Saldanha Sanches auto-emergiu  como o mais experimentado (já tinha sido preso e baleado) e assumiu-se  logo ali como responsável pela cela prisional, distribuindo tarefas e  organizando uma lista de reivindicações. Foi breve essa passagem pelos  calabouços da PIDE, tanto que nem consta do largo currículo prisional de  Saldanha Sanches. Enquanto Saldanha Sanches me “chefiava” em Caxias  pela minha insignificância de “preso político de base”, cá fora, no  desassossego das famílias dos encarcerados pela PIDE amontoadas às  portas da António Maria Cardoso, Esmeralda, a minha irmã mais velha e  minha mãe substituta, uma camponesa urbanizada que sempre me reprovava  “meter-me em política”, acartando um farnel, impetuava desabridamente,  com o seu espírito transmontano, contra os <em>pides</em> de serviço,  exigindo a devolução imediata do seu “<em>maninho</em>” e  garantindo-lhes que dali não saía enquanto a devolução exigida não se  concretizasse. Foram os pais de Saldanha Sanches, já batidos nas  anteriores reclusões do filho, usando a sabedoria da experiência, que  acalmaram e enquadraram a impaciência dorida da minha irmã. E até eu ver  a luz do sol na saída da António Maria Cardoso, os pais de Saldanha  Sanches não faltaram um momento no acompanhamento da minha irmã que  sofria aquela prisão com a surpresa revoltada de quem nada entendia da  necessidade e utilidade de haver quem combatesse a ditadura que ela  entendia como uma fatalidade eterna, quase um sortilégio da natureza. Ou  seja, enquanto eu em Caxias me subordinava ao “posto por experiência”  de Saldanha Sanches, o mesmo género de hierarquia estabelecia-se, cá  fora e na cadeia das dores afectivas, entre os nossos familiares. São  coisas que a amnésia não corrói.</p>
<p>Até  sempre, Saldanha Sanches.</p>
<p>(Publicado também em <a href="http://agualisa6.blogs.sapo.pt/1699761.html" target="_blank">Água Lisa</a>)</p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2010/05/saldanha-sanches.jpeg?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[186]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[258]]></thumbnail_height></oembed>