<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Caminhos da Memória]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[Caminhos da Memória]]></author_name><author_url><![CDATA[https://caminhosdamemoria.wordpress.com/author/caminhosdamemoria2008/]]></author_url><title><![CDATA[Saldanha Sanches faz agora parte da&nbsp;História]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p>Um texto de <strong>Justino Pinto de Andrade</strong></p>
<p>(UM DIA ALGUÉM ESCREVEU NOS MUROS DE LISBOA:<br />
“O POVO LIBERTARÁ SALDANHA SANCHES”)</p>
<p>Dedicatória:<br />
<em>Aos meus amigos, Diana Andringa e Fernando Rosas, seus amigos e companheiros de longa data.</em> <em>À Doutora Maria José Morgado, esposa de tantos anos e de tantas caminhadas</em>.</p>
<p>1.	A morte do Professor Saldanha Sanches é mais um momento de dor. É mais uma vela que se apaga dos tempos da minha juventude. Ele em Portugal, e nós aqui, em Angola, lutámos todos contra o regime injusto e anacrónico que nos oprimia. Somos, pois, contemporâneos das mesmas causas: a luta contra o colonialismo e contra o fascismo que alimentava e se alimentava do colonialismo.</p>
<p>2.	Poucos dos que me ouvem (ou lêem) sabem quem foi Saldanha Sanches, já porque ele não era angolano e porque também, nos últimos anos, limitou a sua intervenção pública quase apenas à análise política e económico, em alguns dos órgãos de comunicação social de Portugal.</p>
<p>3.	Saldanha Sanches era um brilhante professor de Direito Fiscal e de Finanças Públicas na Universidade Clássica de Lisboa, também na Universidade Católica Portuguesa. Desligado do activismo político directo, continuou, ainda assim, a ser um referencial da democracia e da luta pela democracia portuguesa. Sempre que estivessem em jogo grandes decisões como, por exemplo, actos eleitorais, lá ele surgia a público, dando opinião sobre os actores em concorrência, sobre as propostas políticas, sobre as razões que estavam por detrás das propostas. Comunicava, também, a sua opção de escolha. Ele não era, pois, um absentista da política. Estava sempre atento.</p>
<p><!--more-->4.	No tempo em que a minha geração se batia, em Angola, pela independência, a geração do Saldanha Sanches lutava, em Portugal, para pôr fim ao regime de Salazar e Caetano, que a todos nós oprimia. Estávamos do mesmo lado da barricada, fazendo parte de um cordão de solidariedade que se espalhava pelo mundo fora.</p>
<p>5.	Os da nossa geração, tivemos o privilégio de viver uma época extraordinária, onde a liberdade e a conquista de mais direitos para os homens e as mulheres de todos os continentes eram as grandes causas. Por isso, vivemos com emoção as transformações que o mundo foi sofrendo: as independências das colónias africanas, as lutas por mais direitos para as classes trabalhadoras na Europa e no continente americano, a emergência de novas nações na América Latina e na Ásia.</p>
<p>6.	Fomos testemunhas dos desenvolvimentos por que passaram as democracias ocidentais. Vimos os negros norte-americanos a consentirem sacrifícios incomensuráveis para conquistarem mais espaço vital e mais justiça social. Vimos o fim de grandes impérios, o surgimento de novos actores globais, o desmascaramento de múltiplas falácias políticas. Caíram na nossa frente regimes que, em nome da liberdade para alguns, afinal, o mais que faziam, era oprimir a todos…</p>
<p>7.	Na nossa geração, deu-se um passo de gigante na busca de outros planetas. Hoje, o homem vai para o espaço, como se o destino fosse mesmo aqui ao lado… A igualdade do género é uma questão dos nossos dias – só um descompensado a pode pôr em causa&#8230; A luta por um ambiente mais saudável faz parte das nossas agendas. O fim das guerras destruidoras é um desígnio a ser perseguido como um alvo…</p>
<p>8.	 Entrámos na roda da história, fazendo parte dela. Não nos alheámos das grandes preocupações do nosso tempo. Temos sabido viver a nossa época, participando, contribuindo. Umas vezes falhando; outras, com acertos fundamentais. Era assim que eu olhava para o Saldanha Sanches, quando ele aparecia na televisão. Como um resistente e um sobrevivente.</p>
<p>9.	Admirava-lhe a sagacidade, a liberdade de pensamento. Orgulho-me de ter sido contemporâneo das suas causas; e ele das minhas – mesmo que separados pela longa distância que vai de Angola a Portugal.</p>
<p>10.	 Lúcido, frontal, irreverente, destemido nas suas análises políticas. Celebrizou-se nos últimos tempos pela denúncia à injustiça do actual sistema fiscal português, à fuga ao pagamento dos impostos pelo esquema dos off-shores, o sigilo bancário que encobre a fraude. A sua opinião desassombrada apoquentava os prevaricadores.</p>
<p>11.	 O cancro maldito fez ao Professor Saldanha Sanches aquilo que a PIDE não conseguiu fazer ao jovem Saldanha Sanches: vencer a sua força indomável. O cancro levou-lhe a vida, mas não o apagou da história. O grande Saldanha Sanches faz, agora, parte da história.</p>
]]></html></oembed>