<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Casa de Camilo]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://casadecamilo.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[casadecamilo]]></author_name><author_url><![CDATA[https://casadecamilo.wordpress.com/author/casadecamilo/]]></author_url><title><![CDATA[Maria da Fonte]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p><a href="https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg"><img data-attachment-id="267" data-permalink="https://casadecamilo.wordpress.com/2008/09/19/maria-da-fonte/bloguemaria-da-fonte/" data-orig-file="https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg" data-orig-size="750,1235" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}" data-image-title="bloguemaria-da-fonte" data-image-description="" data-medium-file="https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg?w=182" data-large-file="https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg?w=622" class="alignleft size-large wp-image-267" src="https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg?w=623&#038;h=1024" alt="" srcset="https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg?w=623&amp;h=1024 623w, https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg?w=91&amp;h=150 91w, https://casadecamilo.files.wordpress.com/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg?w=182&amp;h=300 182w" sizes="(max-width: 623px) 100vw, 623px"   /></a>A cada um seu Camilo, está visto. Na verdade, a obra do nosso escritor é um mundo tão vasto e proteico que dificilmente se poderá encontrar alguém que o não admire e aprecie em alguma das suas facetas. Há quem prefira nele as histórias de amores contrariados e lágrimas. Há quem prefira as páginas de sarcasmo ou, quando em maré de benevolência, de ironia &#8211; de toda a maneira, troça implacável. Há quem prefira o manejar do varapau de polemista invencível. Há até quem prefira o coca-bichinhos de miuçalhas históricas e genealógicas. Há sempre um Camilo que nos diz qualquer coisa.<br />
Pessoalmente, aprecio-o e admiro-o visto de qualquer ângulo &#8211; tirante, confesso, o da poesia. Tanto me comovo com o <em>Amor de perdição</em>, como me divirto com a <em>Queda dum anjo</em>, como pasmo da mestria narrativa das <em>Novelas do Minho</em> ou de <em>A Brasileira de Prazins</em>, como passo duas horas entretidas com as suas obras ditas menores, tipo <em>Cavar em ruínas</em> ou <em>Cousas leves e pesadas</em>.<br />
Mas obviamente há sempre um livro de Camilo que, por um motivo ou outro, nos fala mais. Às vezes nem nós sabemos exactamente porquê. O certo é que fala e prende. Acontece-me isso com <em>Maria da Fonte</em>. É como se sabe uma obra simultaneamente de reminiscências históricas e de polémica contra um outro livro, aparecido em 1884, com o título de Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, da autoria do ultramontano Padre Casimiro José Vieira, que a si mesmo se intitulava «defensor das cinco chagas e general das duas províncias do norte» e que &#8211; Camilo o cita com ironia &#8211; «acaudilhou trinta mil homens e abalou por duas vezes o trono».<br />
O padre é ao mesmo tempo mitómano e megalómano. Reescreve a história ao sabor e à medida da sua auto-estima e do seu ódio aos pedreiros-livres. Claro que Camilo reduz metodicamente a cisco as patacoadas do padre, usando armas que tinha sempre à mão de semear: vigor de raciocínio e de argumentação, segurança nos dados históricos, cultura vasta e vastas leituras, sarcasmo e ironia em doses equivalentes.<br />
É impossível ler o livro sem espirrar aqui e ali frouxos de riso (expressão bem camiliana) à custa das bordoadas com que Camilo deslomba (outra expressão bem camiliana) o padre Casimiro. A técnica usada é bem ao jeito do nosso polemista e deu bons resultados em ocasiões anteriores: reduzir os dislates do adversário a estilhaços e brincar depois com eles, por vezes quase até à crueldade.<br />
A Maria da Fonte termina com um &#8220;Pós-escrito&#8221; que constitui, a meu ver, uma das páginas mais admiráveis de Camilo. Mantém o tom geral do livro, ora sarcástico, ora irónico, mas tempera-o agora de severidade e indignação. Ainda não li em parte alguma &#8211; salvo talvez em A velhice do Padre Eterno, em todo o caso num registo diferente &#8211; um requisitório tão enérgico e tão sentido contra um certo clericalismo sectário e de vistas estreitas como acontece ser o do padre Casimiro, que acaba por não distinguir entre política e religião e vaticina que todos os adversários hão-de dar «pulos no inferno». O &#8220;Pós-escrito&#8221; é uma cúpula primorosa para as duzentas e tal páginas do livro. Termina assim:<br />
«[&#8230;]As modernas angústias do homem que chama os deuses à imitação do terror antigo que os criara, são sagradas e tamanhas que é pouco menos de infame afrontar com vitupérios o incrédulo atormentado pelo seu materialismo. É isso a esponja chegada aos lábios desses Cristos que se dilaceram nas presas da sua dúvida para se resgatarem pela morte. Se não pode compadecer-se, padre, seja ao menos egoísta. Arranje o paraíso eterno da sua pessoa, e deixe os ateus, deixe-os padecer e morrer. Não lhes faça pressão crudelíssima nos espinhos da sua coroa, injuriando-os porque eles não podem crer que haja um deus a contemplar, com a impassibilidade de um Nero divino, as suas criaturas estorcidas entre as labaredas do incêndio que Sua Majestade Suprema assoprou sem ter primeiramente consultado a vontade das vítimas. Cale-se, padre, por honra de Deus, se o acredita!»<br />
<strong>Pires Cabral</strong></p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://i1.wp.com/casadecamilo.wordpress.com/files/2008/09/bloguemaria-da-fonte.jpg?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[200]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[330]]></thumbnail_height></oembed>