<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Cláudia Sofia]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://claudiasofia.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[Claudia Sofia]]></author_name><author_url><![CDATA[https://claudiasofia.pt/author/sophiaspotlight/]]></author_url><title><![CDATA[Depende da perspectiva]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p>Assim que deslizo a porta sinto o ambiente a arrefecer. Na rua, o vento cortante percorre a minha face. Desço a avenida a grande velocidade, escondida entre o casaco e o cachecol, ansiando pelo aquecimento do comboio, que me levaria para mais uma longa viagem matinal.</p>
<p>Pouco depois saí do gélido ar da cidade e recebi o bafo quente da estação. Logo senti a vibração do comboio a reduzir a velocidade para nos receber no seu interior. Num breve salto passei das escadas rolantes para o interior do comboio. Mais um segundo e ficava em terra.</p>
<p>O cheiro do comboio é característico. Nunca se sabe bem a que cheira já que lá dentro se misturam vários aromas… perfumes de todos os gostos e o sentido fechado do comboio mesclam com o nosso odor corporal.</p>
<p>Como o dia começou bem cedo – de vez em quando – sinto o meu corpo a desligar. Mesmo assim, sempre tive dificuldade em dormir em espaços públicos. Quase sempre é a paisagem que me mantém atenta.</p>
<p>Agarro-me a ela com todo o ser. Por vezes prendo-me no verde das árvores e arbustos que viajam em sentido contrário. Há outras, que me deixo levar pelo brilho do sol a bater nas águas dos rios que ali vão tocar.</p>
<p>Perdida na imagem natural que anima as margens da linha, sinto todos os murmúrios dos meus vizinhos de viagem. E num suspiro, ouço a voz de alguém – uns lugares à minha frente – a tentar, a todo o custo, despertar a curiosidade a quem se ocupava da natureza… a mesma que comigo viajava.</p>
<p>Durante algum tempo ouvi frases como “já leste o jornal?” ou “tem aqui muita coisa interessante”. Do outro apenas ouvia o descaso completo pela informação que queria passar-lhe.</p>
<p>A dada altura, e depois de muita insistência, o jovem, que encostava a testa à janela, abandonou a paisagem e perdeu-se nos meus olhos. Ficou inerte e concentrado. Eu deixei levar-me pelo brilho dos seus. Sem saber muito bem o que fazer, decidiu então pegar no jornal e disse:</p>
<p>“Ora vamos lá ver… novela política, mais novela politica, ah… novela futebolística – quem compra quem, quem vende quem, a arbitragem – balelas, balelas e mais balelas!!! Parece-me que esta maravilhosa paisagem que nos acompanha é uma distracção bem mais agradável! Não te parece?” e voltou a perder-se nos meus olhos. Desligou-se, enquanto o outro amuava.</p>
<p>Poucos segundos depois, voltou ao seu namoro com a natureza e eu encontrei-me no esplendor das águas brilhantes que percorriam a sua face iluminada pelo sorriso refrescante do sol.</p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://sophiaspotlight.files.wordpress.com/2017/06/dependedaperspectiva.jpg?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[220]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[330]]></thumbnail_height></oembed>