<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[Conversas de Bica]]></provider_name><provider_url><![CDATA[http://conversasdebica.pt]]></provider_url><author_name><![CDATA[Tita Bica]]></author_name><author_url><![CDATA[https://conversasdebica.pt/author/titabica/]]></author_url><title><![CDATA[Sonhadores involuntários]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p><img data-attachment-id="2600" data-permalink="https://conversasdebica.pt/2018/02/12/sonhadores-involuntarios/img_20180212_031533/" data-orig-file="https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?w=3120&#038;h=4160" data-orig-size="3120,4160" data-comments-opened="1" data-image-meta="{&quot;aperture&quot;:&quot;2&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;CAM-L21&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1518404917&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;3.79&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;1310&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.05&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}" data-image-title="IMG_20180212_031533.jpg" data-image-description="" data-medium-file="https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?w=3120&#038;h=4160?w=225" data-large-file="https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?w=3120&#038;h=4160?w=768" src="https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?w=3120&#038;h=4160" class="alignnone size-full wp-image-2600" width="3120" height="4160" srcset="https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg 3120w, https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?w=113&amp;h=150 113w, https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?w=225&amp;h=300 225w, https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?w=768&amp;h=1024 768w" sizes="(max-width: 3120px) 100vw, 3120px"></p>
<p>Sou absolutamente fã da contemporânea escrita africana de expressão portuguesa. De Mia Couto a José Eduardo Agualusa, passando por Ondjaki &#8211; uma poética que me fascina, os neologismos, a utilização prática da língua, rompendo com a estética complicada dando vida e musicalidade à linguagem, como se o meu alentejo e as suas vozes e raízes se estendessem às longínquas terras do calor, a terra e o sol abraçassem o sonho. Mal comparado diria que o fascínio que sempre senti pela literatura sul americana, como se aquela fusão entre o real e o surreal, se tivesse, nos nossos dias, mudado para a África de expressão portuguesa.</p>
<p>Acabei agora de ler a sociedade dos sonhadores involuntários e sinto-me como se viesse à boleia da onda, esperando que ela se prolongue pela praia e não termine. Sinto-me sempre consolada depois de um destes livros&#8230;</p>
<blockquote><p> &#8221; Querido Daniel,</p>
<p>Os antigos gregos, como os chineses ou os hebreus, não tinham uma palavra destinada a designar a cor azul. Para todos eles o mar era verde, acastanhado ou cor de vinho. Eventualmente negro. Na pintura ocidental o mar só começou a ser representado a azul no séc. XV. Também o céu não era azul. Poetas descreviam-no como rosado, ao amanhecer; incendiado, ao lusco-fusco; leitoso, nas melancólicas manhãs de Inverno.</p>
<p>Talvez sejam os nomes a dar existência às coisas. Não é o que afirma a bíblia? &#8221; No princípio era a palavra e a palavra estava com Deus e a palavra era Deus.&#8221;</p>
<p>Imagino uma sociedade secreta de poderosos demiurgos. Vejo-os atravessando os séculos, confundindo-se com as multidões, na sua fantástica missão. Eis que vão de povoado em povoado, disseminando nomes nas mais diversas línguas e, à medida que essas línguas se enriquecem, o universo vai ganhando cor e complexidade.</p>
<p>Contrariando a tese acima, sinto que acontecem na minha alma, frequentes vezes, um tumulto de sentimentos nunca nomeados. Talvez se tornem comuns, daqui a muitos anos, quando alguém lhes der um nome. Entretanto, sou como um pintor que, em plena idade Média, escolhesse um certo tom de azul para colorir o mar. Isto antes de existir a palavra azul. Antes de existir a cor azul. Contemplando as telas desse pintor, olhando aquelas ondas de uma cor impossível, as pessoas não conseguiriam esconder a estranheza e o horror. Imagino que se soubesses o que vai no meu espírito também tu experimentarias náusea semelhante. Tu e todos os outros.</p>
<p>Sou alguém que chegou cedo demais. Imagina uma mulher passeando entre dinossauros. Sou essa mulher. Um monstro &#8211; diriam os dinossauros.</p>
<p>Acordei hoje com esta certeza e queria partilhá-la contigo antes da tua chegada. Recebi os teus poemas. Não sou a pessoa que estás inventando neles ( inventamos sempre as pessoas que amamos). É mais complicado: sou uma pessoa que não poderias inventar. Estou além da tua imaginação. No entanto gostei dos poemas. Gostei de me sentir, por instantes, essa outra mulher que te inspirou.</p>
<p>Beijos,</p>
<p>Moira&#8221;</p></blockquote>
<p><i>Capítulo 21, A sociedade dos sonhadores involuntários</i></p>
<p>José Eduardo Agualusa</p>
<p>Tão mas tão bom, tão eu que quase nem dá para acreditar&#8230;</p>
<p>Aconselho.</p>
]]></html><thumbnail_url><![CDATA[https://titabica.files.wordpress.com/2018/02/img_20180212_031533.jpg?fit=440%2C330]]></thumbnail_url><thumbnail_width><![CDATA[248]]></thumbnail_width><thumbnail_height><![CDATA[330]]></thumbnail_height></oembed>