<?xml version="1.0" encoding="UTF-8" standalone="yes"?><oembed><version><![CDATA[1.0]]></version><provider_name><![CDATA[]]></provider_name><provider_url><![CDATA[https://escritadagua.wordpress.com]]></provider_url><author_name><![CDATA[filipao]]></author_name><author_url><![CDATA[https://escritadagua.wordpress.com/author/filipao/]]></author_url><title><![CDATA[Os autocarros de&nbsp;Canelas]]></title><type><![CDATA[link]]></type><html><![CDATA[<p align="justify">Nos finais da década de 50, a aproximação de Agosto ou Setembro (alternadamente cada ano) trazia sempre uma especial agitação, numa casa tradicionalmente calma e organizada, instalava-se uma desorganização muito particular, era a preparação da mala (mala?&#8230; era um verdadeiro baú onde tinham de caber os principais pertences, de dois adultos e duas irrequietas crianças), para além de um incomensurável conjunto de sacos, saquinhos e saquetas, onde a dona da casa colocava tudo o necessário, para 30 dias da família, numa outra habitação sua, mas de férias e a cerca de 250 km da habitação regular, nada podia ficar esquecido.</p>
<p align="justify">Após 6 horas de viagem (num comboio muito diferente do Alfa dos nossos dias), chegávamos a Estarreja, onde nos aguardava um táxi que nos conduzia ao nosso destino, já tão perto, mas para mim, ainda tão distante, Canelas, onde a chegada incluía invariavelmente uma volta completa a todas as divisões da casa, procurando ainda hoje não sei o quê de novo, mas que certamente só poderia ser algo, de que a memória se tivesse esquecido, da última vez que ali tenha estado. Na manhã seguinte o despertar era cedo, “cedissimo” pois toda uma panóplia de aventuras me aguardava, era só preciso deslocar-me até aos locais onde as coisas aconteciam… nesse tempo ainda não tinha bicicleta própria ou a que pudesse chamar minha, por algumas horas que fosse, portanto a única solução era recorrer aos transportes públicos… habituado na minha tenra idade de vida na cidade, a ver passar uns carros grandes cheios de gente, rua acima e quase simultaneamente outros tantos rua abaixo, constatei que em Canelas, pequena aldeia da Beira Litoral, e especialmente a determinadas horas do dia, também haviam uns estranhos carros puxados por bois que com invariável cadência, subiam ou desciam a rua do Campo da Cruz; passados os primeiros momentos de vergonha (que diabo, na capital também andava na “pendura” dos eléctricos), lá me acomodava num, perante a complacência do proprietário, que entre frases de comando à “junta”, sempre me ia dizendo para ter cuidado com as rodas, e eu lá seguia sem pagar bilhete, até… sei-lá, umas vezes pela Rua de Baixo passando à Rua da Aldeia, outras pela Rua Direita (que é esquerda, como todos sabem) seguindo pela Rua da Mata direito aos campos, onde invariavelmente me empanturrava de amoras bravias, colhidas na beira do caminho, e fumava escondido um cigarro feito com “barbas de milho”, ou dava uma cachimbada de um “cachimbo” feito de um caniço oco e de um fruto duma arvore, cujo nome o tempo apagou da minha memória, (não, não estou a brincar, lembrem-se que tudo isto se passava numa altura, em que as chaves ainda ficavam nas portas, e as bactérias e os germes, esses marotos ainda não tinham aprendido o caminho para a miríade de doenças juvenis dos dias de hoje, e se porventura a mão que apanhava as amoras, se esticava um pouco mais e apanhava um cacho de uvas com dono, e este do meio da sua faina se tivesse apercebido do roubo, nem nos dava tempo para saboreá-lo, pregava-nos um belo par de tabefes, sem que daí resultasse uma criança irremediavelmente complexada para o futuro, ou com qualquer outro tipo de sequelas, tão em moda nos dias de hoje. O único receio, era mesmo que os nossos Pais viessem a saber, que os seus filhos tinham momentaneamente esquecido todos os Princípios e Valores que eles tanto se tinham esforçado por lhes incutir, até porque isso normalmente implicava um “arraial” dos antigos).</p>
<p align="justify">Mais tarde era só mesmo apanhar, mais um ou vários “transportes” de regresso, para não chegar tarde à refeição familiar. E agora digam lá se não haviam autocarros de verdade em Canelas, nos anos cinquenta? Digam o que disserem, para mim, sempre existiram e existirão, pois foram eles que me levaram, vezes e vezes sem conta, rumo aos meus sonhos.</p>
]]></html></oembed>